O interior de Minas não merece receber as finais? A incoerência do Mineiro exclusivo em BH

Atlético e Caldense se enfrentarão duas vezes no Mineirão, assim como no último sábado. Foto: Pedro Souza / Atlético

Por Pedro Bueno

O Campeonato Mineiro chegou a fase final com algumas surpresas. O tradicional América ficou fora das finais, enquanto o Athletic terminou em segundo, atrás apenas do favorito Atlético. Além dos líderes que possuem nomes semelhantes, o Cruzeiro foi para a reta final do estadual na terceira posição e a Caldense ficou com a última vaga.

Logo, o estadual de Minas Gerais foi para a semifinal com dois clubes da capital e dois times do interior, tendo um interessante equilíbrio entre os times de Belo Horizonte e os representantes de outras regiões do estado. Só que este equilíbrio não resultou em uma justiça nas fases finais em ambos os casos.

O Athletic, equipe de São João del-Rei, fez a segunda melhor campanha do Campeonato Mineiro e tem o privilégio de decidir a semifinal contra o Cruzeiro em casa – além da vantagem de jogar por dois resultados iguais. No entanto, o seu estádio não possui a estrutura necessária para receber uma partida de semifinal do estadual e a equipe terá que jogar no Mineirão.

O mesmo vale para a Caldense, equipe que até poderia realizar o primeiro jogo frente a sua torcida em Poços de Caldas, mas também mandará o seu jogo no Gigante da Pampulha. Por altos custos para instalar o VAR, a equipe alega que foi “forçada” a optar pelo Mineirão.

Sendo assim, mesmo com a participação de dois clubes do interior na fase final, o Campeonato Mineiro terá partidas exclusivas em Belo Horizonte a partir da semifinal. É justo? O interior não merece receber as finais do estadual?

As justificativas

É importante frisar que os adversários de Atlético e Cruzeiro queriam, obviamente, jogar realmente em casa, mas terão que utilizar o Mineirão como casa na semifinal. Se apenas Athletic ou Caldense tivessem os seus mandos alterados, os torcedores de Galo e Raposa iriam até alegar um favorecimento para o outro rival da capital, porém os dois times do interior tiveram que mudar o local dos seus mandos.

No caso do vice-líder do torneio, o Athletic, o problema foi a iluminação, segundo a nota oficial do clube. A decisão foi tomada devido à falta de capacidade de iluminação da Arena Unimed, casa da equipe em São João del-Rei. A questão é que esta condição poderia prejudicar a análise do juiz de vídeo.

Ainda segundo o time do interior, a FMF e o Grupo Globo até tentaram ajudar o clube, a partir do fim da fase final, mas não havia tempo hábil para deixar o estádio nas condições ideiais. Vale destacar que o Athletic passou toda a primeira parte do estadual nas primeiras colocações e era o grande favorito a ser campeão do interior em 2022.

Já a Caldense foi mais dura na sua nota oficial e informou aos seus torcedores que o clube só decidiu pelo Mineirão após tentar três outras opções, sendo assim “forçado” a escolher o Gigante da Pampulha como casa, em vez de atuar em Poços de Caldas. O grande vilão desta mudança foram os altos custos da implementação do juiz de vídeo. É importante frisar que a Caldense não disputa nenhuma outra competição que utiliza as câmeras e não tem a estrutura necessária no seu estádio.

Com a classificação para a fase final, a equipe até procurou a FMF para analisar a possibilidade de implementar o VAR no Ronaldão, o seu estádio, mas os altos custos e a falta de patrocínio impossibilitaram o duelo contra o Galo frente a sua torcida. Até por isso, a Caldense, na sua nota oficial, pediu desculpas ao torcedor.

A incoerência

A primeira fase do Campeonato Mineiro contou com 11 partidas para cada equipe e várias polêmicas de arbitragem. O alívio para muitos torcedores é – com razão – a presença do juiz de vídeo a partir da semifinal do estadual. Porém, a presença desta importante ferramenta acaba fazendo com que o torcedor se afaste do estádio.

Os times do interior entraram no Mineiro com a intenção de surpreender os favoritos e conseguiram. O principal representante foi o Athletic, equipe que venceu oito das suas onze partidas e terminou a fase inicial na segunda posição. Só que este mesmo time não terá o direito de disputar a fase final na sua cidade por causa das incoerências da Federação Mineira de Futebol.

É esperado que a FMF tenha deixado claro, no início do estadual, que seriam necessárias mudanças nos estádios para utilizar o VAR, mas, mesmo assim, os clubes do interior, em sua maioria, não possuem receitas que permitam antecipar uma possível classificação. Se torna interessante implementar a ferramenta de trabalho do juiz de vídeo somente para as equipes que se classificam e, obviamente, após a confirmação da classificação.

Por isso, seria necessário que a própria FMF ajudasse estes clubes para que não houvesse um desequilíbrio, mas a Federação não arca com custos e desvaloriza o próprio produto. Contar com todos os jogos da fase final no Mineirão será uma clara desvantagem para os times do interior. A incoerência é a FMF permitir e não auxiliar os clubes para não existir esta exclusividade danosa para a essência dos estaduais.

As histórias perdidas

Na tarde de quarta-feira, 23, às 16:30, a Caldense enfrenta o Atlético no Mineirão, em jogo que deveria ser realizado em Poços de Caldas. Além de um horário bizarro em um dia útil, o qual foi exigido pela TV Globo, detentora dos direitos de transmissão, o Ronaldão ser desprezado é uma grande perda para a quarta colocada do Mineiro.

Já o Athletic duela com o Cruzeiro no Mineirão no sábado, 26, às 16:30, em partida que será decisiva para o confronto. Mesmo com a vantagem de decidir em casa por ter campanha melhor que o adversário, o Athletic não atuará na Arena Unimed e o palco da partida também será o Gigante da Pampulha.

Sendo assim, o melhor time do interior não poderá sonhar com voos maiores na sua cidade. O Athletic terá que viajar para Belo Horizonte e tentar uma façanha ainda mais difícil na capital mineira. As justificativas em torno da implementação do VAR e iluminação são até válidas, mas a falta de auxílio da FMF chama a atenção, visto que não será possível acompanhar a grande festa dos torcedores do interior.

Receber o Atlético liderado por Hulk ou o Cruzeiro que pertence a Ronaldo é uma grande oportunidade para qualquer clube do interior de Minas Gerais. Em qualquer ocasião, a cidade já fica parada para acompanhar os duelos. Em uma semifinal ou possível final de estadual, as festas nas cidades mineiras seriam até maiores, mostrando quão grande é a oportunidade de receber os melhores jogadores do Brasil. Infelizmente, isto não será possível em 2022.

O gramado e o futuro

Antes de finalizar, é necessário imaginar como ficará o gramado do Mineirão depois do próximo domingo, 26. Com quatro jogos da semifinal em um um intervalo de poucos dias, o Gigante da Pampulha, estádio que já recebeu uma partida do Atlético no último sábado, 19, será sede de cinco partidas em um intervalo de uma semana.

  • Atlético 3 x 0 Caldense – 19/03/2022;
  • Cruzeiro x Athletic – 22/03/2022, às 20:30;
  • Caldense x Atlético – 23/03/2022, às 16:30;
  • Athletic x Cruzeiro – 26/03/2022, às 16:30;
  • Atlético x Caldense – 27/03/2022, às 18 horas;

Portanto, o gramado do Mineirão será bastante exigido. Com tantos jogos em um curto espaço de tempo, a realidade indica que o campo sofrerá muito e as consequências poderão ser vistas nas partidas seguintes. Esta concentração de jogos em um mesmo estádio não é nada saudável, e Atlético e Cruzeiro podem ter problemas futuros.

Outra questão futura que é interessante ressaltar é acerca de uma postagem do presidente do América, Alencar da Silveira Jr. Segundo ele, o presidente da FMF, Adriano Aro, garantiu que, a partir do próximo ano, o Mineiro contará com VAR em todos os jogos, ou seja, desde a fase inicial. Como funcionará? A FMF ajudará os clubes na implementação ou os times do interior serão prejudicados novamente?

Apenas o Campeonato Mineiro de 2023 responderá. Só que é evidente que o estadual precisa de uma estratégia melhor. Não é possível permanecer sem o VAR – porque a arbitragem é muito ruim e urge por qualificação -, ao mesmo tempo que todas as equipes devem ter possibilidades iguais de implementar o equipamento nos seus estádios.

Veremos como o futuro do estadual se desenhará. Enquanto isso, acompanhamos uma boa reta final de estadual que esbarra em incoerências e injustiças.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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