Uma noite épica que mostrou ao América qual é a essência da Copa Libertadores

Os guerreiros que conseguiram a classificação para o América no Defensores Del Chaco. Foto: Mourão Panda / América

Por Pedro Bueno

Fim do primeiro tempo do jogo de volta. Na casa do adversário, o time se encontrava perdendo por 2 a 0 e a partida anterior, no seu estádio, havia terminado com o placar de 1 a 0 para o rival. Portanto, a equipe tinha 45 minutos, como visitante, para conseguir reverter uma vantagem de 3 a 0 no agregado. E conseguiu uma virada emblemática no segundo tempo. 3 a 2 no placar e decisão por pênaltis.

Na marca da cal, o mesmo time visitante errou a terceira cobrança e viu três “match points” do adversário. Na primeira oportunidade, o seu camisa 10 marcou o gol e deu continuidade à disputa. Já na chance seguinte de encerrar a partida, o goleiro do rival acertou a trave. Por fim, na última cobrança que um erro acabaria negativamente com a disputa, o camisa 9 do time mineiro fez. Nas alternadas, após três erros consecutivos, o camisa 37, atleta que entrou no segundo tempo e foi decisivo, fez o seu gol e classificou o clube.

Um roteiro único. Uma noite épica. América Futebol Clube, você foi apresentado à Copa Libertadores da América. Esta adrenalina sentida pelos seus torcedores é a sensação que o torneio sul-americano geralmente provoca. Trata-se da essência da Libertadores. E a classificação do Coelho para a terceira fase da Pré-Libertadores foi mais um daqueles capítulos históricos da competição.

Sobraram emoções e disposição para buscar uma virada histórica. A primeira vitória do América na Libertadores também foi a primeira virada, a primeira classificação e a primeira sensação continental. Talvez os torcedores ainda não tenham esta noção, mas a história foi feita e é necessário comemorar, ao mesmo tempo que é urgente analisar as razões de ter tantas dificuldades para eliminar um adversário bem limitado.

Os problemas iniciais

A partida de ida, quando o América dominou, pecou na hora da finalização e foi punido por um gol nos minutos finais, deixou uma lição, mas o Coelho, aparentemente, não aprendeu. O início da partida no Defensores Del Chaco assustou todos os americanos.

A equipe até teve a posse de bola – 79% – na primeira etapa, porém sofreu dois gols em um intervalo de três minutos e se encontrou em uma desvantagem considerável com 15 minutos de jogo. Aos 12, o lateral-esquerdo Guillermo Benitez antecipou lançamento de Jaílson, acelerou pelo meio, passou com muita facilidade por cinco defensores do América e entrou na área. Na sequência, Éder derrubou o ala do Guaraní e o árbitro marcou o pênalti. Fernando Fernández marcou o primeiro gol do time paraguaio, mas o que realmente chamou a atenção foi a tamanha facilidade que Guillermo teve para passar pela marcação.

O camisa 13 do Guaraní estava cercado por cinco marcadores e passou tranquilamente. Fonte: vídeo da ESPN no Youtube.

A marcação equivocada no lance do primeiro gol, como exposto na imagem acima, resultou uma sequência de desatenções e o América precisava, naquele momento, de uma parada técnica para colocar a “cabeça no lugar”. Notando isso, o Guaraní chegou novamente e, no minuto 15, ampliou a vantagem em ótimo cabeceio de Marcos Cáceres, atleta que também estava desmarcado.

Os problemas iniciais ficaram nítidos no placar. Após perder em casa e sonhar com uma remontada no tradicional estádio localizado em Assunção, o América viu o Guaraní abrir 2 a 0 no placar e sabia que precisava de três gols só porque o seu sistema defensivo não estava funcionando. Até conseguiu a virada, mas os erros da defesa não podem ser ignorados. Na verdade, para sonhar com voos maiores, é necessário corrigir estas questões.

A virada no tempo normal

O primeiro tempo terminou com 2 a 0 no placar para o Guaraní e apenas uma finalização correta do América. O time mineiro teve a bola, mas não conseguiu ser realmente agressivo, mesmo precisando de três gols. No entanto, o intervalo fez muito bem para o clube mineiro que voltou bem melhor e se impôs em campo.

Logo no minuto 14, Wellington Paulista mostrou que, mesmo veterano, ainda consegue marcar gols importantes e empurrou para o fundo das redes. O mesmo centroavante, dono da camisa 7, aproveitou cruzamento de Everaldo aos 29 do segundo tempo e empatou o jogo – 2 a 2 -, possibilitando que os americanos sonhassem nos minutos finais, visto que a equipe entrou na parte final da partida precisando de apenas um gol para empatar o placar agregado.

Precisando da virada, um jogador se mostrou importantíssimo: Everaldo. O ponta entrou aos 28, deu assistência aos 29 e chamou a responsabilidade pelo lado direito. O camisa 37 tentou várias jogadas até que aos 46, ou seja, já nos acréscimos, Everaldo cruzou e Pedrinho finalizou. A bola explodiu na defesa e voltou para o mesmo camisa 29. Pedrinho chutou forte e fez um lindo gol.

Uma bola única que bateu no travessão e quase não entrou. Mas entrou. E o americano comemorou. O torcedor do Coelho comemorou como jamais havia celebrado. Uma vitória continental estava acontecendo e o cenário era completamente improvável. Todavia Wellington Paulista marcou dois. Everaldo brilhou. E Pedrinho decidiu.

3 a 2 no placar e uma comemoração efusiva de um time que estava perdendo por 3 a 0 no agregado até os 13 da segunda etapa. Um resultado improvável no Defensores Del Chaco, mas um resultado que proporcionou “apenas” os pênaltis.

A virada nas penalidades máximas

A história já havia sido feita. O América conseguiu uma virada emblemática dentro dos 90 minutos para conquistar a sua primeira vitória na história da Libertadores. Entretanto, a classificação ainda não estava confirmada e uma decisão por pênaltis iria responder qual clube estava pronto para jogar a terceira fase da Pré-Libertadores. E foi emocionante, mais uma vez.

O Guaraní acertou as quatro primeiras cobranças, enquanto o América desperdiçou a sua terceira cobrança com Henrique Almeida. Estando com o placar de 4 a 2 na quarta cobrança, o Coelho sabia que não podia perder. Caso a bola não entrasse, o América estaria fora da Copa Libertadores da América. E foi a partir deste momento que o impossível começou a acontecer.

Índio Ramírez cobrou bem e fez o gol americano, levando a decisão para a última cobrança. Na marca da cal, o goleiro do Guaraní tinha a chance de definir e sair como herói, mas acabou acertando a trave e deu a possibilidade do América empatar. Rodolfo cobrou bem e fez o seu, encerrando as cinco primeiras penalidades com o placar de 4 a 4.

3 a 3 no agregado do confronto. 4 a 4 nas penalidades máximas. O equilíbrio que chamava a atenção continuou nas primeiras cobranças alternadas, quando Rodi Ferreira isolou e Patric teve a chance de classificar o Coelho, contudo bateu mal e o goleiro do Guaraní fez a defesa.

Só que Jaílson “ficou com inveja” e também fez uma ótima defesa no pênalti seguinte, dando outra chance para o América matar o confronto. Ainda com 4 a 4 no placar, mas já na sétima cobrança, Everaldo pegou a bola, colocou na marca da cal e bateu forte para se colocar na história do América Futebol Clube.

Uma noite épica

02 de março de 2022. O América saiu perdendo por 2 a 0 e virou, fazendo três gols no segundo tempo. O 3 a 2 no tradicionalíssimo Defensores Del Chaco foi a primeira vitória da história do Coelho na Copa Libertadores da América. Além disso, o 5 a 4 nas penalidades máximas acarretou um passo a mais na competição continental.

O América se classificou na Libertadores e jogará a terceira fase da Pré-LIbertadores, restando apenas um passo para chegar à fase de grupos, estágio que garantiria um enorme e importante montante financeiro.

O torcedor americano sabe que terá uma dura missão frente ao Barcelona de Guayaquil. Os equatorianos estavam na semifinal da última Libertadores e serão um páreo duro para o time mineiro na terceira fase da Pré-Libertadores. No entanto, quem protagonizou estas viradas não deve temer nenhum adversário.

O América Futebol Clube passou pela noite mais espetacular da sua história justamente no jogo mais importante dos seus quase 110 anos. A primeira partida oficial do América fora do Brasil teve um roteiro inacreditável e um resultado merecido. Além da classificação, o torcedor americano foi apresentado à adrenalina da competição sul-americana.

A partir deste 02 de março de 2022, o América sabe o que é a Copa Libertadores da América. Essas viradas mostram qual é a essência da competição continental. Não deve faltar raça, vontade, qualidade e determinação. O Coelho entregou tudo isso no segundo tempo e conseguiu fazer história. Comemore, torcedor, porém as batalhas continuam. Voos maiores podem acontecer e o time lutará, mas alguns erros devem ser corrigidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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