Possibilidades de Atlético em Brasília e Cruzeiro em Sete Lagoas evidenciam que a torcida mineira, infelizmente, voltou de forma precoce aos estádios

A torcida estava presente e deu show, mas estava muito aglomerada, infelizmente. Foto: Pedro Souza/Atlético.

Por Pedro Bueno

Foi muito bonito e importante, para o esporte, contar com a presença da torcida nos estádios de Belo Horizonte na última semana. Na quarta-feira, 18, o Atlético passou por cima do River Plate-ARG e se classificou para a semifinal da Libertadores da América com o apoio da apaixonada massa atleticana. Dois dias depois, na sexta-feira, 20, a torcida azul celeste marcou presença no Mineirão e viu a importantíssima vitória cruzeirense na Série B, a qual encerrou uma seca da Raposa de quase dois meses sem vencer como mandante.

No entanto, a beleza e os pontos positivos do retorno da torcida ao estádio param nestes aspectos esportivos. O restante dos importantes quesitos para voltar às arquibancadas em meio à feroz pandemia do coronavírus não foram seguidos e o espectáculo foi prejudicado.

Todas as pessoas ficaram emocionadas com a torcida alvinegra empurrando o time frente ao River ou se emocionaram com a torcida azul motivando a Raposa para buscar uma recuperação na Série B. Porém, todas as pessoas ficaram – ou pelo menos deveriam ter ficado – preocupados com a questão sanitária. Protocolos não foram seguidos, a falta de compreensão acerca da pandemia ficou clara – poucas pessoas usavam realmente a máscara e a maioria estava aglomerada – e é necessário analisar novamente esta volta aos estádios, pensando em toda a sociedade.

Por isso, as possibilidades de Atlético em Brasília e Cruzeiro em Sete Lagoas, caso a Prefeitura de Belo Horizonte mantenha a suspensão das partidas na capital, evidenciam que a torcida mineira, infelizmente, voltou de forma precoce aos estádios.

As partidas

Os duelos envolvendo Atlético e River Plate, e Cruzeiro e Confiança foram cruciais para mostrar a importância da torcida no estádio, visto que a vantagem de contar com os apoiadores é indiscutível. O torcedor já está com saudades, o jogador também e o clube necessita esportivamente e financeiramente do retorno da torcida. No entanto, a pandemia persiste no Brasil, a vacinação não está tão adiantada e são necessários cuidados que não foram tomados.

O jogo do Galo foi o mais comentado pela quantidade de pessoas. Foram liberados 17 mil ingressos e o Mineirão, por meio das suas redes sociais, confirmou que este foi o público. Porém, algumas pessoas nas redes sociais contestaram esse número nos últimos dias, visto que dúvidas surgiram pela parte visual do estádio, sem nenhuma prova acerca da venda além do permitido de ingressos.

A parte principal deste jogo entre Atlético e River Plate ficou marcado pela aproximação dos torcedores nos arredores e dentro do estádio, onde os torcedores possuiam espaço para ficar distanciados e não seguiram o protocolo. Dentro do estádio, na teoria, todos estavam com exames de COVID-19 negativados, mas podem existir falhas nos diagnósticos e na verificação dos exames. Além disso, nos arredores do Mineirão, a aglomeração não foi controlada e qualquer torcedor pôde se reunir previamente.

Já a partida do Cruzeiro frente ao Confiança não provocou tamanha repercussão, visto que a partida atleticana aconteceu anteriormente e porque a Raposa contou com menos torcedores. Devido aos altos valores e por causa da repercussão ruim sobre o jogo do Galo, pouco mais de 4 mil torcedores foram à partida do Cruzeiro, segundo o jornal O Tempo – a equipe azul celeste e o Mineirão não confirmaram o público do jogo. Mesmo com menos pessoas, os setores populares do estádio estavam bem mais cheios e contaram com uma aproximação desnecessária, além do baixo números de pessoas usando máscara.

Mesmo com menos torcedores, a torcida cruzeirense também ficou bem aglomearada, infelizmente. Fonte: jornal O Tempo.

A suspensão

Logo após as duas partidas em Belo Horizonte, o prefeito da cidade, Alexandre Kalil decidiu ir contra a sua decisão e suspendeu as partidas na capital mineira. O mandatário de BH foi um dos primeiros líderes a liberar a torcida, tanto que apenas Brasília e Belo Horizonte receberam jogos de alto nível com a presença do público. No entanto, após os dois “jogos-testes”, o prefeito afirmou que o retorno foi um fracasso e a parte da saúde da cidade precisava rever algumas regras para o futebol acontecer com público.

Depois de várias discussões e polêmicas, principalmente envolvendo os investidores do Atlético e o ex-presidente e atual prefeito, a suspensão segue vigorando, porém há uma expectativa de retornar em breve. A questão é que o Comitê de Enfrentamento à COVID-19 de Belo Horizonte quer estudar uma maneira mais segura de promover este importante retorno. Portanto, as próximas semanas devem ficar marcadas por novidades e é possível que os torcedores voltem até o fim de setembro, segundo o secretário da saúde Jackson Machado Pinto.

A saída dos clubes

Todavia, mesmo com a possibilidade de voltar no próximo mês, Atlético e Cruzeiro agiram nos últimos dias para seguirem atuando com a presença dos seus torcedores – além dos gigantes mineiros, apenas o Flamengo está atuando com a torcida e, assim como o Galo, somente na Libertadores.

Pensando na decisão frente ao Palmeiras, no fim de setembro, a Rádio Itatiaia e o portal Fala Galo informaram que o time alvinegro tem a cidade de Brasília como a primeira opção, caso a Prefeitura de Belo Horizonte permaneça com a presença de torcida suspensa. Mesmo separados por mais de 700 km, o Atlético pode jogar no Distrito Federal, pois não deseja atuar sem a presença da sua massa – mesmo que o Palmeiras já tenha confirmado que jogará a partida de ida sem torcida. Logo, utilizar o Mané Garrincha é, definitivamente, uma opção.

Já o Cruzeiro tende a escolher algum lugar mais próximo de Belo Horizonte. Se a suspensão da torcida for mantida, a Raposa já tem o estádio certo, segundo a Itatiaia: a Arena do Jacaré, em Sete Lagoas. Por causa desse interesse, o clube mineiro já assumiu uma reforma no gramado do estádio – custará 10 mil reais – e a expectativa é atuar contra a Ponte Preta já no dia 07 de setembro com os torcedores em Sete Lagoas. Além de arrumar o “tapete”, o Cruzeiro terá que correr atrás de uma liminar para atuar fora de Belo Horizonte, mas, segundo o jornalista Samuel Venâncio, da Rádio Itatiaia, esta liminar não deve ser complicada. Portanto, em alguns dias, a torcida cruzeirense tende a estar na Arena do Jacaré apoiando o clube.

É a realidade, infelizmente

O Brasil é um dos países que mais sofreu com a pandemia do coronavírus. Infelizmente, quase 600 mil pessoas morreram desta doença que, além das mortes, deixou muitos danos na sociedade. Serão anos marcantes e o lado financeiro de todos está debilitado – os alimentos, as contas e a gasolina estão em um preço absurdo. Obviamente, o futebol também passa por alguns destes problemas, no entanto, a abordagem deve ser feita de uma forma diferente.

O esporte ficou parado por quatro meses em 2020 e voltou, visto que a “roda financeira” do futebol deveria voltar a andar. O retorno, mesmo preocupante, foi justo pela necessidade de atuar para ganhar dinheiro e sustentar principalmente aqueles funcionários que ganham pouco. No entanto, em mais de um ano sem torcida, o futebol brasileiro se adaptou à falta dos torcedores e poderia segurar mais algumas semanas para retornar.

Como dito anteriormente, apenas Atlético, Cruzeiro e Flamengo contaram com o apoio dos seus torcedores, sendo que a Raposa é a única equipe da Série B a ter este privilégio e o Galo e o time carioca possuem torcedores apenas na Libertadores, respeitando um “acordo” feito entre os clubes nas competições nacionais. Portanto, estes times são precursores e não estão dando um bom exemplo.

Retornando a falar apenas dos clubes mineiros, a Prefeitura de Belo Horizonte quer revisar os protocolos para ter a certeza que a partida será segura. Ficou claro que, da forma que foram disputadas as partidas na última semana, os jogos não deveriam continuar até os torcedores entenderem que algumas ações estavam erradas. No entanto, não adiantará nada remanejar as partidas e colocarem torcedores de BH em viagens para Sete Lagoas e Brasília, visto que o vírus seguirá agindo e as aglomerações sem máscara continuarão acontecendo.

Mais vacina e mais calma para voltar

Apenas um item resolverá esta situação: a vacina. Atualmente, o Brasil ainda não alcançou os 30% da população totalmente imunizada. Portanto, é necessário vacinar mais e esperar. O futebol é algo importantíssimo para todos e os torcedores estão com uma saudade muito justa de apoiar o clube, mas a volta foi feita de forma precoce.

A escolha de ir para outra cidade ou outro estádio não é nada saudável também, ao analisar a questão da pandemia. O melhor para este momento é ter calma, visto que ainda não é o momento ideal pela baixa quantidade de pessoas totalmente vacinadas. Segundo especialistas, se torna seguro a partir do momento que 70% da população esteja imunizados, ou seja, em uma sociedade que não segue as regras, a melhor saída para todos é esperar.

Caso os torcedores resolvessem seguir os protocolos, o futebol até poderia realmente contar com uma parcela da torcida. Porém, as regras foram aplicadas de forma branda pelos organizadores e foram totalmente negligenciadas pelos torcedores que são os protagonistas desta volta. Sem a ajuda da sociedade, não é possível ter o retorno da torcida.

É complexo e polêmico, mas existem algumas ações para satisfazer aqueles que querem voltar às arquibancadas: se vacinar, usar máscara e manter o distanciamento. Quando houver uma nova partida com torcida em MG ou em qualquer lugar do Brasil, sigam os protocolos e as regras corretas. Ao fazer isso, você está possibilitando o seu próprio retorno em outras oportunidades ao estádio, a ida de outros torcedores e a importante volta da cultura das torcidas nas arquibancadas. Basta você ajudar!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Fernando Freitas

Não concordo com o titulo da entrevista. Não acho que foi precoce. Acho que os envolvidos (PBH, Atletico, torcida) não deram a atenção devida.. O Mineirão é espacoso e consegue acomodar muito bem os 30% com distanciamento. Só que isso envolve custos. Custo de bloquear o entorno do estadio, assim como na Copa, para não permitir a entrada dos curiosos. Custo de obstuir as cadeiras que nao devem ser utilizadas, custo de fiscalizar, na minha visão para não aglomerar tem que oferecer mais opções, portanto deveriam ter permitido os ambulantes. Falta disposição para assumir esses custos.