Atlético | A principal diferença entre jogar com três zagueiros de origem e atuar com uma linha de três defensores

Junior Alonso é um dos melhores jogadores do Atlético, mas teria seu talento potencializado na linha de defensores e não como lateral ofensivo. Foto: Pedro Souza / Atlético

Por Pedro Bueno

É estranho, mas existe uma grande diferença entre jogar com três zagueiros de origem – como o Atlético utilizou contra América e Boca Juniors – e atuar com uma linha de três defensores – apenas contra o Flamengo o sistema com a linha de três foi realmente utilizado. Além de haver uma diferença tática, o posicionamento da parte ofensiva do time é modificada e, consequentemente, o adversário se adapta às fragilidades da equipe.

É claro que observar esta diferença em campo é difícil, mas é importante destacar que não se trata de uma escolha defensiva ou ofensiva, mas sim de uma organização melhor das suas peças. No caso do Atlético, Cuca tem nas mãos um fortíssimo elenco e conta com Júnior Alonso, zagueiro rápido e talentoso, que já jogou de lateral-esquerdo anteriormente na carreira. A posição pode até ser exercida pelo defensor paraguaio, mas o Atlético deve tomar cuidado com as funções que são depositadas em Alonso como ala.

Por isso, o objetivo desta análise é destacar que um time de futebol pode entrar até com seis zagueiros em campo, mas não necessariamente estará jogando com uma linha de três defensores. Todos os torcedores e analistas possuem posições pré-definidas de cada atleta, como se fosse em um videogame, mas a vida real indica que cada jogador tende a desempenhar a função que o técnico mandar e nem sempre dará certo.

Jogar com três zagueiros de origem x atuar com linha de três defensores

Algumas diferenças táticas podem ser detalhadas por outros especialistas ou pelos próprios torcedores, porém a principal diferença entre atuar com três zagueiros de origem, estando um na ala, e jogar com linha de três defensores é que são sistemas completamente diferentes, onde a parte defensiva, a saída de jogo e a parte ofensiva sentem esta diferença.

Os exemplos utilizados serão os jogos frente ao Flamengo – linha de três defensores e dois alas – e contra América e Boca Juniors – linha de quatro defensores (dois alas e dois zagueiros), mesmo estando com três zagueiros de origem em campo.

Começando pelo jogo contra o Flamengo, o Atlético contou com Nathan Silva, Réver e Júnior Alonso em uma linha de três, onde a marcação se fechava com os dois alas – Arana e Mariano – e, portanto, o Galo contava com cinco marcadores na última linha no momento defensivo. Esta linha de cinco impede a liberdade dos pontas adversários, evita jogadas internas com o centroavante – Pedro pouco fez – e ainda permite marcações mais próximas como Nathan Silva fez em Bruno Henrique. Na parte ofensiva, a saída de jogo ganha mais um homem, visto que, mesmo com as subidas dos alas, Allan ficou próximo do trio defensores e o Atlético tinha superioridade numérica para fazer a saída de jogo. Portanto, frente ao Flamengo, o Atlético teve mais tranquilidade defensiva e apresentou mais facilidade para iniciar as jogadas.

Já contra o América e o Boca Juniors, o Galo atuou com Nathan Silva, como zagueiro pela direita, e Réver ou Igor Rabello pela esquerda, além de Junior Alonso como lateral-esquerdo. É necessário ressaltar: em nenhum momento Alonso atuou como zagueiro pela esquerda, formando uma linha de três defensores, ou seja, a sua função era exclusivamente a ala. Esta afirmação é possível visualizar em momentos que o lateral-direito Mariano está marcando: Alonso realizou a mesma função de Mariano, só que no lado oposto.

Portanto, o Atlético contou com três zagueiros de origem, mas com uma linha de quatro defensores e com Alonso indo bastante para o campo de ataque. Desta maneira, o Galo teve problemas na saída de jogo nestas duas partidas, visto que o time contava com um jogador menos talentoso na parte ofensiva – não é possível comparar Arana e Dodô com Alonso como lateral – e não possuía superioridade numérica no início das jogadas.

Além destes problemas na construção de jogadas, a parte defensiva ficava debilitada porque Alonso não incomodou muito o lateral-direito adversário e, por consequência, o ala rival ficou descansado para contra-atacar. Como Alonso foi muitas vezes apenas até a intermediária ofensiva, a recomposição do excelente zagueiro ficou enfraquecida e principalmente o Boca Juniors tentou explorar bastante o lado esquerdo da defesa atleticana: Pavón e Villa se alternaram e deram muito trabalho para Alonso, visto que o paraguaio não tem a mesma velocidade de Dodô, por exemplo, para atacar e defender.

Enfim, a diferença é que, em um sistema com uma linha de três defensores, a equipe ganha solidez defensiva e possui uma saída com superioridade, enquanto seguir jogando da mesma forma sem um lateral talentoso e pró-ataque pode acarretar problemas defensivos e ofensivos, já que a recomposição pode demorar mais para acontecer e o lateral não cria tantas jogadas no ataque.

Qual é a saída?

Obviamente, o técnico Cuca está utilizando Alonso como lateral-esquerdo porque Arana está com a seleção olímpica e Dodô ainda não está 100% fisicamente. Por isso, não é simples encontrar uma saída, mas a principal mudança que o treinador pode fazer é alterar a função de alguns atletas.

Como dito anteriormente, os torcedores e analistas possuem uma ideia fixa de posição: Alonso é zagueiro, Tchê Tchê é volante, Hulk é atacante, etc. No entanto, dentro de campo, os atletas podem desempenhar outra função, caso o técnico mande. Por isso, cabe ao técnico visualizar que a formação com um lateral menos talentoso no apoio não está funcionando e o time está sendo prejudicado na recomposição, saída de jogo e no ataque.

Uma possível solução, observando a escalação do jogo da última terça, 13, frente ao Boca Juniors, poderia ser a utilização de Alonso como um lateral na parte defensiva, em uma linha de quatro defensores – da mesma forma que o time atuou -, mas com Alonso ficando, no momento ofensivo, ao lado de Nathan Silva e Réver, liberando apenas a subida de Mariano. Desta maneira, o Atlético defenderia em um 4-4-2 e atacaria em um 3-5-2, onde Mariano iria para a linha de meio-campistas, como um ala, e Alonso ficaria na linha de defesa, diminuindo os problemas de recomposição e melhorando a saída de jogo.

Outra possibilidade seria a mudança da função do polivalente Tchê Tchê. Como utilizado contra o Atlético-GO, o camisa 37, atleta de confiança de Cuca, poderia atuar como ala esquerdo, possibilitando uma linha de três defensores, onde Alonso voltaria a atuar como zagueiro pela esquerda.

Enfim, o Atlético tem uma importantíssima batalha na próxima terça-feira, 20, contra o Boca Juniors. Mais uma atuação como a do jogo de ida pode ser terrível para a temporada atleticana. Portanto, mudanças são necessárias e ajustar as questões defensivas, voltando a usufruir todo o talento de Junior Alonso, melhor zagueiro atleticano, é uma boa maneira de organizar tanto a parte defensiva quanto o momento defensivo.

Contrariando o estereótipo de muitos, uma linha de três defensores não significa uma postura defensiva. Pelo contrário, jogar com três zagueiros bem posicionados é algo que está se tornando comum no futebol europeu e melhora a própria defesa, a construção de jogadas e até mesmo o momento ofensivo, visto que existe confiança na defesa e o time pode “se soltar” no ataque. Atento a isso, atleticanos!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Obscuro

O Alonso não foi nem lateral e nem zagueiro, Menos um em campo, o Boca fez todas melhores jogadas naquele setor..