O clássico deixa um recado para o Atlético: menos balão e mais organização

Foto: Pedro Souza / Atlético

Por Pedro Bueno

O grande derrotado do domingo, 11, foi o Atlético. A expectativa de vencer o rival com uma boa vantagem, massacrar o possível time mais fraco da história do Cruzeiro e colocar em prática o futebol bonito visto nas primeiras rodadas estava presente na torcida alvinegra. Por isso, a derrota, da forma que foi, deixou ainda mais o torcedor decepcionado. A Raposa mereceu a vitória desde o início, enquanto o Galo estava muito desorganizado.

Por isso, mesmo tendo perdido o clássico, o jogo do último domingo deixou um recado para aqueles que desejam o melhor para o Atlético: o time precisa usar menos o balão e ter mais organização. Este fundamento não faz parte do futebol moderno e o elenco do Galo exige um futebol mais qualificado, onde a bola fica no chão. Por enquanto, as jogadas atleticanas necessitam de alguma referência para escorar e isso danifica o futebol de vários destaques do Atlético.

A culpa da derrota no clássico não é exclusiva do treinador Cuca, no entanto, o técnico deve repensar alguns pontos. O Atlético tinha uma base, uma filosofia de jogo, mas, nos últimos jogos, o futebol apresentado mostra que aquela forma de atuar foi esquecida. Era realmente necessária uma mudança drástica? E esta mudança levará a qual ponto?

Desta forma, se faz necessário interpretar ainda mais o recado deixado pelo clássico: um time da qualidade do Atlético não pode seguir fazendo tantas ligações diretas. A organização deve ser o próximo passo do time atleticano, a fim de não comprometer uma temporada.

O clássico

A análise é necessária após o clássico por um motivo matemático. O Atlético teve 61,28% de posse de bola, ou seja, na teoria, o Galo ficou com a bola durante 55 minutos, aproximadamente. Durante este domínio atleticano, os jogadores tentaram 43 lançamentos, ou seja, a cada cinco minutos, o Atlético fez, praticamente, quatro lançamentos. Esta média é apenas um cálculo matemático, mas exemplifica qual foi a válvula de escape do Galo no clássico: dar balão.

Em meio a esta forma de jogo, alguns jogadores têm uma confiança maior na tentativa de fazer esta ligação direta e, consequentemente, erram mais, sendo criticados pela torcida. O goleiro Éverson tentou 15 lançamentos e errou sete, com aproveitamento ligeiramente superior aos 50%. Já o volante Allan tentou nove vezes e errou em três oportunidades, tendo assim 66,7% de aproveitamento. Mas foi o zagueiro Junior Alonso que realmente se destacou negativamente: foram sete tentativas do paraguaio e apenas uma bola correta. Todos estes dados foram retirados do Footstats.

Estes jogadores erraram bastante, pois eles tiveram que tentar muitas vezes. A saída de jogo do Galo era inexistente e, certamente, o pedido do treinador era para que estes jogadores mais talentosos tentassem realizar esta ligação direta. Mas a ligação direta é correta apenas se o atacante conseguir ficar com a bola. E isso não aconteceu no jogo frente ao Cruzeiro, como é possível ver no vídeo abaixo.

Bola no chão potencializa jogadores

Segundo os dicionários, potencializar significa tornar algo mais potente, eficaz ou mais ativo, intensificar a qualidade e etc. E é justamente isso que falta no estilo de jogo do Atlético atualmente. O craque da equipe, Nacho Fernández, e os destaques da última temporada, Arana e Keno, ficaram apagados no duelo frente ao Cruzeiro por uma razão: o estilo de jogo não os potencializou.

O armador argentino necessita de ter a bola no chão para organizar e ditar o ritmo do time atleticano. Com ligações diretas, alguém precisaria ajeitar para ele e, desta maneira, a marcação tem mais facilidade para desarmar Nacho. Já Keno e Arana não são fortes o suficiente para brigar pela bola no alto. Por isso, o Galo não teve criatividade e nem força no lado esquerdo.

A criação no chão, com organização e inteligência, faz com que estes jogadores se destaquem. O torcedor atleticano pode estar pensando que o time de 2013 jogava com as ligações diretas e foi campeão, porém, além do futebol estar bem diferente, o Atlético contava com Ronaldinho Gaúcho, um gênio incomparável.

Cuca deve se atualizar e romper com estas convicções de ligação direta pelo bem do Clube Atlético Mineiro. O Atlético, equipe que conta com Nacho Fernández, Matías Zaracho, Keno, Savarino, Arana, Hulk e etc, não pode desperdiçar o talento dos seus jogadores tão valiosos para jogar em uma forma “arcaica”.

A diferença de balão para lançamento

Não existe uma definição exata sobre isso e os sites que contabilizam estatísticas não os diferenciam, mas, é possível distinguir estes dois fundamentos os colocando em caminhos diferentes.

Para iniciar as definições, o lançamento é uma possibilidade de encontrar um jogador livre, em uma brecha deixada pelo adversário ou nas costas da defesa do rival. Já o balão é uma tentativa desesperada de desafogar a parte defensiva e uma ligação direta sem olhar previamente onde o companheiro está posicionado.

O lançamento é um fundamento que ainda se faz presente no futebol. As inversões são importantes para abrir a defesa adversária e, com jogadores velozes como Keno e Savarino nas pontas, um lançamento bem feito pode os deixar na cara do goleiro. O lançamento, se for bem realizado, é algo positivo.

Em contrapartida, o balão não tem nada de positivo, principalmente no futebol moderno e com o elenco atleticano. O Galo não conta com nenhuma referência – camisa 9 raiz – no plantel e não é possível fazer da mesma forma que Jô fazia há oito anos pelo Atlético. O balão é uma forma de jogo que ficou ultrapassada, visto que o time precisa ter a bola para chegar no gol adversário. Ao dar o balão, a equipe coloca a bola em disputa sem precisar. Em algumas ocasiões, o balão para desafogar pode ser importante, mas não deve ser a forma de jogo de uma equipe tão qualificada como o Atlético.

Menos balão e mais organização

Não existe uma perseguição sobre o estilo de jogo do Atlético e do treinador Cuca, mas há uma constatação clara que o Galo não pode jogar desta forma por causa de um simples detalhe: fez muito investimento. O time alvinegro conta com jogadores talentosíssimos e a bola no chão é o caminho ideal para a melhor produtividade destes atletas.

No entanto, não adianta apenas deixar os balões de lado e achar que a opção de sair tocando é a solução. O time precisa se organizar e isso é urgente. O Atlético começa a disputa da Libertadores em 10 dias e sair na fase de grupos da competição está fora de cogitação. A organização é o primeiro passo para o time melhorar.

Se não houver uma mudança clara, o Atlético, infelizmente para a sua apaixonada torcida, pode ser dominado por elencos mais modestos, como o seu rival – equipe que fez uma partida brilhante – e a temporada poderá se comprometer por erros básicos. Ainda há tempo para corrigir. A questão é querer. Ao trabalho, Atlético!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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