Análise | A mudança de filosofia no Cruzeiro merece tempo, calma e, obviamente, críticas

Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Por Pedro Bueno

Após uma temporada desastrosa em 2020, o Cruzeiro compreendeu a sua situação e optou por um técnico “sem tanto nome” para comandar a sua equipe em busca do retorno à Série A. O nome de Felipe Conceição foi bem aceito entre os torcedores e a estratégia de contratar um treinador bom, com experiência na 2ª divisão e que ganha, relativamente, pouco foi uma ótima ideia cruzeirense.

Felipe Conceição chegou com aprovação, teve duas semanas de pré-temporada e foi bastante elogiado pelos seus comandados. Porém, o bem-estar acabou rapidamente. O time azul celeste foi derrotado pela Caldense em casa, arrancou um empate melancólico no confronto com o São Raimundo-RR, pela Copa do Brasil, e ainda não convenceu os seus torcedores.

No entanto, era obrigação do Cruzeiro e dos seus jogadores darem resultado imediatamente? A compreensão de uma filosofia de jogo completamente diferente merece tempo, calma e, obviamente, críticas. Por isso, é necessária uma análise para detalhar que, mesmo com um futebol abaixo do esperado, o julgamento sobre um trabalho deve acontecer após mais semanas de treinamentos e jogos. Confira!

Os últimos treinadores

Desde 2015 até 2020, o Cruzeiro teve uma filosofia de jogo clara e evidente: o jogo reativo. Com esta estratégia defensiva, a equipe mineira foi bicampeã da Copa do Brasil e do Campeonato Mineiro, além de classificações para a Libertadores. Porém, com esta mesma filosofia de jogo, o Cruzeiro foi rebaixado em 2019 e apresentou um desempenho vergonhoso em 2020.

Portanto, não é a filosofia que determina um resultado, mas a forma com que o estilo de jogo é implementado. Obviamente, os atletas de cada temporada fazem com que o treinador opte por uma estratégia, mas os últimos treinadores têm como semelhança a postura defensiva.

  • Em 2015, os treinadores do Cruzeiro foram Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes e Deivid;
  • Em 2016, os técnicos da Raposa foram Deivid, Paulo Bento e Mano Menezes;
  • Desde 2016 até o meio de 2019, o treinador do Cruzeiro foi Mano Menezes;
  • Em 2019, após a saída de Mano, os técnicos da Raposa foram Rogério Ceni, Abel Braga e Adílson Batista;
  • Em 2020, os treinadores do Cruzeiro foram Adílson Batista, Enderson Moreira, Ney Franco e Felipão;

Após seis temporadas com treinadores que são tradicionalmente defensivos – talvez Rogério Ceni seja a única exceção -, o Cruzeiro enxergou que era necessário mudar a sua forma de jogo. Defensivamente e ofensivamente, a equipe não foi bem na Série B de 2020 e em muitos jogos da última temporada, como as partidas contra o Oeste, a Raposa não atacava uma equipe bem inferior. A mudança era necessária e aconteceu.

A nova filosofia

Os torcedores do Cruzeiro, em sua maioria, compreenderam e abraçaram a ideia de contratar um treinador como Felipe Conceição. O Tigrão, como era chamado na época de jogador, teve passagens pelo América e Guarani, com boas campanhas na Série B, mas não conseguiu se firmar na elite do futebol brasileiro, já que foi demitido pelo Red Bull Bragantino rapidamente em 2020.

Mesmo com este currículo curto, o Cruzeiro apostou no treinador visando um perfil mais jovem, barato e experiente na 2ª divisão. A estratégia foi correta e, certamente, a parte financeira da equipe agradeceu. E é importante destacar que a filosofia de jogo é um rompimento de anos e anos jogando de uma mesma forma.

Felipe Conceição é um técnico ofensivo e que deseja ter a posse de bola durante o jogo. A forma constante com que os seus atletas se movimentam e a busca incessante ao gol são características marcantes. Outras definições do pensamento tático de Tigrão são a intensidade, pressão na saída de bola do adversário e linha de alta de defesa, a fim de pressionar o rival no próprio campo.

Calma, tempo e críticas

A filosofia que Felipe Conceição está tentando implementar no Cruzeiro é, praticamente, inversa ao estilo de jogo dos últimos treinadores. O pensamento em apenas se defender e contragolpear o adversário foi extinto do dicionário cruzeirense e a atual estratégia deseja um toque refinado desde a defesa até chegar no ataque, com amplo domínio das ações ofensivas. Por isso, o desempenho atual merece calma, tempo e, obviamente, críticas.

A transição entre as filosofias é um processo que não acontece de um dia para outro. Por isso, o torcedor deve ter calma e paciência, a fim de conceder o tempo necessário para que o time compreenda as exigências do treinador. Foram apenas cinco jogos na temporada e a melhora imediata é improvável. A irregularidade acontece, mas os próprios jogadores devem estar focados e empolgados com a ideia do técnico. Desta maneira, o futuro cruzeirense pode ser bem melhor que o passado recente. 

Ao mesmo tempo que deve haver calma, as críticas devem ser feitas ao treinador e aos atletas – as críticas são feitas para uma melhor evolução da equipe. Obviamente, Felipe Conceição está implementando a sua ideia de jogo desde a primeira partida, mas é necessário o entendimento que muitos jogadores do elenco não tiveram contato com esta forma de jogo no Cruzeiro e nem em seus clubes anteriores. Por isso, foi possível ver alguns atletas errando posicionamento, passes e, até mesmo, a marcação. A transição da forma de jogo deveria ser feita com menos velocidade, para que os atletas pudessem se adaptar sem prejudicar tanto a equipe. Além disso, as escolhas do treinador por alguns jogadores em determinadas situações devem ser reavaliadas pelo próprio Felipe Conceição. 

É necessário repetir: são apenas cinco jogos e a competição mais importante da temporada é a Série B, onde o Cruzeiro tem a obrigação de ficar entre os quatro primeiros. Enquanto isso, a evolução deve existir e o trabalho de Felipe Conceição deve ser avaliado, porém com tempo, calma e críticas pontuais. O melhor para o Cruzeiro é este caminho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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