Utilização de atletas da base: o problema de Atlético e Cruzeiro e a solução de Palmeiras e Santos

Kaio Jorge e Patrick de Paula se enfrentando em meio aos jogadores experientes. Foto: Ivan Storti/Santos FC

Por Pedro Bueno

Palmeiras e Santos irão decidir a Copa Libertadores da América de 2020 em 30 de janeiro de 2021. Uma final merecida pela campanha e pela história dos times na atual temporada. Além do estado, as equipes têm um ponto em comum: Palmeiras e Santos deram grandes responsabilidades para jovens jogadores e a resposta foi dada em campo. Gabriel Menino, Patrick de Paula e Danilo por um lado. Kaio Jorge, Sandry e John do outro. A base deu resultado.

E em Minas Gerais, a base dos dois grandes times não estão dando o resultado esperado. O problema é estrutural: desde a organização da própria base até os torcedores impacientes. Atlético e Cruzeiro até conseguem colocar um jogador ou outro, mas faz tempo que um grande jogador, principalmente na parte ofensiva, não é revelado nos times mineiros. Por quê?

A base da base

Um dos maiores problemas da base dos clubes é a base da base. Entendeu? Não? Explico. A categoria de base tem esse nome por ser a sustentação de uma equipe, onde são originados os jogadores que estarão à disposição no futuro. É o príncipio de uma equipe. Porém, quando há corrupção desde o início, o término é prejudicado. Por isso, as bases mineiras não deram tantos resultados na última década – Bernard, Lucas Silva e outros poucos nomes são exceções.

Não é nenhuma novidade que existem muitas polêmicas nas categorias de base. Alguns jogadores de Atlético e Cruzeiro tiveram problemas ao ser lançados por causa da má administração de diretores e mandatários corruptos. O exemplo mais claro na cabeça de todos é o escândalo envolvendo Estevão William, conhecido como Messinho. O garoto teve seus direitos cedidos a um empresário mesmo tendo apenas 12 anos, um crime denunciado pelas reportagens da Rede Globo, em maio de 2019.

A estrutura é a questão-chave de vários problemas do Brasil. A corrupção também é um dos quesitos mais discutidos em diversos âmbitos. Para corrigir isso nas categorias de base das equipes, as gestões devem analisar os problemas desde a raiz.

O imediatismo

Quando alguns jogadores, principalmente ofensivos, são lançados nas equipes mineiras, o torcedor imagina que está nascendo um novo Reinaldo ou Tostão. E não é assim. Em muitos casos, estes jovens jogadores sofrem com a pressão inicial e não conseguem jogar. Em outros casos, as promessas começam bem, os torcedores empolgam ainda mais e depois de alguma irregularidade, os jogadores são atacados pela própria torcida.

A crítica é necessária, mas o imediatismo faz mal ao futebol. Esperar que uma promessa de 17 anos possa resolver um jogo é justo, porém cobrar que decidir uma partida seja a única atuação aceitável é cobrar demais de alguém que está apenas iniciando. As críticas, em muitos momentos, podem ser prejudiciais, já que o jovem, ao ouvir muitas coisas pesadas sobre as suas atuações, pode se abalar facilmente.

A falta de confiança somada ao alto número de críticas da torcida podem acarretar em problemas para os próprios atletas. Criticar Hyoran, no Atlético, ou Henrique, no Cruzeiro, é muito diferente de criticar Calebe ou Adriano, visto que os jogadores recém-promovidos ao time principal não conseguem ter a mesma mentalidade forte de um jogador experiente. Henrique e Hyoran já se acostumaram e se recuperarão facilmente. Adriano e Calebe, após uma chuva de críticas e xingamentos, podem não recuperar o seu futebol.

É necessário ter cuidado. Os exemplos foram usados pois são meio-campistas de times mineiros, onde os jovens da base são contestados, contudo, são importantes para os treinadores. Já os experientes são bem contestados, mas vivem bom momento – Hyoran – ou tem muita história na equipe – Henrique.

O torcedor quer algo imediato. Quer o resultado e descobrir um novo gênio. Não é assim que funciona e muitas vezes a contestação incessante pode ser prejudicial a um jogador que está começando. Não é necessário “passar a mão na cabeça”, no entanto, respeitar o processo de amadurecimento é algo que os torcedores mineiros têm que aprender para melhorar os resultados da própria equipe.

Vencer as competições de base ou jogar no profissional?

Competições de base são importantes e, aparentemente, os torcedores estão acompanhando mais. No entanto, a reflexão é crucial: é mais importante um título nas categorias de base ou a utilização dos jogadores no profissional?

Como exemplo disso, é possível destacar que, nesta temporada, o Santos ficou em 18º colocado no Brasileirão sub-20, ou seja, uma posição vergonhosa se for analisar apenas a posição. Porém, vários atletas – Kaio Jorge, Sandry, Marcos Leonardo e outros – poderiam estar atuando na base, mas eles foram chamados para resolver partidas com o profissional e chegaram, junto com o restante do time, na final da Libertadores.

O Palmeiras ficou em 8º no Campeonato Brasileiro sub-20 e foi eliminado para o bom time do Galinho. O sub-20 atleticano liderou a fase inicial e disputará a final. É muito importante e positivo vencer a competição, mas não é a principal preocupação. A evolução de jogadores como Guilherme Santos, Giovanni, Wesley Hudson, entre outros, é a parte mais importante da competição.

Essas competições também servem para avaliar o trabalho. A 19ª posição do Cruzeiro sub-20 e a falta de destaques preocupam e acarretaram a demissão do treinador Gilberto Fonseca. Paulo Ricardo foi contratado e melhorias devem acontecer em prol de um Cruzeiro mais forte.

Os torneios são consequências positivas de trabalhos que são bem-feitos. Mas, não é a principal função das categorias de base. Perder um título, ser eliminado ou ficar em 18º, como o Santos, não é terra arrasada. O torcedor quer ser campeão de qualquer jeito, mas o principal objetivo da categoria de base é a evolução e a experiência e não os resultados. É melhor as taças serem conquistadas no profissional, como Palmeiras ou Santos conquistarão. As revelações estavam ajudando no profissional e o título irá para algum lugar de São Paulo. O exemplo está no estado vizinho. Basta olhar….

As escolhas dos próprios treinadores

Depois de citar a gestão e a torcida como personagens que precisam de mudanças para melhorar os resultados, é necessário falar sobre os treinadores. O Atlético só foi dar chance para garotos como Talison quando teve o surto de COVID-19. No mais, Sampaoli usou pouco a categoria de base: Calebe e Sávio tiveram mais chances, no entanto, o jovem de 16 anos não foi tão testado e Calebe acabou sendo utilizado na derrota pesada para o líder São Paulo.

Já o Cruzeiro testou muitos jogadores na atual temporada, mas com Felipão as promessas sumiram. Maurício é – ainda – o artilheiro da Raposa na temporada, com cinco gols – mesmo número de Sobis e Manoel – mesmo tendo sido trocado por William Pottker em outubro. Cacá era uma das grandes promessas da equipe, mas se tornou reserva e jogou apenas 97 minutos nas últimas 12 partidas. Matheus Pereira e Adriano são titulares da equipe e representam a base. Porém, foi necessário o Cruzeiro quebrar a cabeça com vários jogadores experientes em má fase para optar pelos jovens.

Em 2021, o Atlético tende a investir ainda mais e dar menos espaço para jovens. Guilherme Santos, Matheus Mendes e Guilherme Castilho – o primeiro é destaque do sub-20 e os dois últimos estão emprestados – pedem passagem, entretanto não é garantido que terão oportunidades para desenvolver o seu futebol. O Campeonato Mineiro, que iniciará quatro dias após o término da Série A, pode ser a única chance destes atletas na próxima temporada. Já o Cruzeiro tende a contratar jogadores mais experientes para a sequência de 2021, visto os pedidos do técnico Felipão.

O caminho de Palmeiras e Santos, neste ano, foi bem diferente das equipes mineiras e os finalistas da Libertadores colheram o fruto rapidamente. Vanderlei Luxemburgo não fez um bom trabalho no Verdão, mas conseguiu dar as chances necessárias para Gabriel Menino, Patrick de Paula e Wesley. No Santos, Cuca assumiu um time com muitos problemas financeiros, sem permissão para contratar, com lesões de jogadores importantes – como Carlos Sánchez – e chegou na final da Libertadores graças às suas apostas. Os meninos recompensaram as equipes paulistas pela confiança e, certamente, ainda gerarão muito dinheiro em negociações futuras.

Organização é a palavra

Definir o que uma equipe de futebol deve fazer, estando à distância e sem ter conhecimento de como funciona a engrenagem de um time de futebol, é errado da minha parte. Porém, foi possível destacar alguns pontos notáveis do grande problema que está prejudicando a evolução dos jovens nas equipes mineiras. Corrigir a estrutura, com certeza, é o primeiro passo.

Júnior Chávare é um dos nomes mais renomados entre os executivos de categoria de base e o Atlético, se o mantiver, seguirá em boas mãos. O seu trabalho é percebido a longo prazo e o atleticano não precisa imaginar que irá ver craques da base da noite para o dia. Já o Cruzeiro entendeu alguns erros e trocou de comando após a campanha ruim no sub-20. Mudanças ainda devem acontecer para possuir uma base que possa recuperar as finanças cruzeirenses.

Enfim, para melhorar esta questão, organização é o principal ponto. As diretorias devem tomar providência nesta melhoria. Porém, os gestores não são responsáveis sozinhos. Os treinadores devem entender as melhores partidas e momentos para lançar os atletas e os torcedores necessitam ter calma e paciência com os jogadores. Duas partidas resolvendo o jogo não significa que trata-se de um gênio, ao mesmo tempo que dois jogos atuando mal não é determinante para “queimar” uma promessa.

A categoria de base é importante para a parte financeira, esportiva e de representatividade no clube. Portanto, deve ser dada a atenção necessária para ela. Estruturar, ter paciência e cuidado são os pontos principais para lidar com os problemas na categoria de base de Atlético e Cruzeiro. Enquanto isso, os meninos do Santos e do Palmeiras decidirão uma Libertadores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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