Há 70 anos, Atlético encerrava a sua excursão na Europa e se tornava Campeão do Gelo

Os campeões do gelo. Fonte: Blog O Curioso do Futebol

07/12/1950. Neste dia, o Atlético enfrentou o Stade Français, encerrou a longa excursão pela Europa e se consagrou como Campeão do Gelo. No seu hino, o atleticano tem orgulho de gritar que é campeão do gelo e que o seu time é imortal. Porém, muitos torcedores não sabem a história por trás desta viagem do Galo para a Europa.

Já se foram 70 anos e a história segue sendo emblemática, visto que o Atlético foi o primeiro time brasileiro a fazer uma grande excursão para a Europa, abrindo portas para outras equipes irem nos anos seguintes. O intercâmbio futebolístico foi preponderante para a evolução do futebol e foi por causa disso que o Atlético foi chamado. 

Atualmente, apenas um atleta está vivo. Walter José Pereira, mais conhecido como Vavá, esteve presente, foi campeão e eternizou o seu nome na história atleticana. Há 5 anos, o Atlético produziu um curto documentário sobre a excursão sob a ótica de Vavá. Confira e veja os detalhes da conquista histórica. 

O documentário “O Imortal do Gelo” com Vavá, atleta daquele time histórico.

O contexto

Era final de 1950. O Brasil havia perdido a Copa de 50 para o Uruguai, no terrível episódio do “Maracanazo”, mas mesmo assim o futebol brasileiro já era encarado como uma potência. No geral, o futebol sulamericano era superior que o europeu e dirigentes alemães buscavam uma equipe para fazer uma excursão no país, para apresentar o futebol “de verdade”. 

O país germânico vivia uma época difícil: a 2ª Guerra Mundial havia terminado em 1945 e o caos ainda estava instaurado. A população tinha apenas uma pequena esperança em um mundo melhor, por causa das ruínas que haviam sido deixadas pela guerra, e o futebol seria uma forma de mudar o foco. 

Por isso, empresários vieram ao Brasil e convidaram o atual bicampeão mineiro, maior vencedor do estadual e campeão do único campeonato nacional até então, a Copa dos Campeões de 1937 (que também está presente no hino). 

O Atlético foi convidado para esta excursão na Europa com a responsabilidade de apresentar o nosso futebol para eles. E, aparentemente, deu certo. É claro que não é possível afirmar, porém 4 anos depois da passagem do time de Kafunga, Zé do Monte e outros nomes históricos do Atlético, a Alemanha venceu a sua primeira Copa do Mundo. Coincidência ou auxílio atleticano?

Por que campeão do Gelo?

O atleticano carrega com orgulho este verso no seu hino, no entanto alguns torcedores não sabem que os jogadores do Atlético sofreram com o gelo. O Galo viajou para a Europa no final de outubro e voltou apenas em meados de dezembro de 1950, ou seja, pegaram o final do outono europeu, quase chegando ao inverno rígido do Velho Continente.

Por causa disso, as 26 pessoas que representaram o Galo sofreram com o frio e com a neve, principalmente na Alemanha, onde o Atlético fez seis das dez partidas. Os jogadores, acostumados com o clima tropical brasileiro, não esperavam o frio europeu e tiveram que comprar casacos ao desembarcar na Europa. 

Os jogadores atleticanos brincando com a neve. Fonte: Blog O Curioso do Futebol.

Para muitos, a experiência foi ainda mais maravilhosa por ter sido a primeira oportunidade de viajar para fora do país, de conhecer a neve e outras culturas, porém o forte frio foi prejudicial em algumas atuações. Alguns atletas tiveram até hipotermia em certas partidas, devido ao frio e aos uniformes que estavam preparados somente para o “frio” de Minas Gerais. O Atlético enfrentou tudo isso e por isso é campeão do gelo. 

A excursão

Foram 10 jogos no Velho Continente, entre 01/11 e 07/12, onde o Atlético venceu seis partidas, empatou duas e foi derrotado duas vezes. Há curiosidades nas duas oportunidades que o Galo perdeu: no tropeço contra o Werder Bremen, o Atlético havia jogado no dia anterior, viajado de ônibus e chegou na hora da partida, uma situação desumana; na derrota para o Rapid de Viena, o capitão Zé do Monte ficou bem irritado com a arbitragem, perguntou para a intérprete como xingava o juiz e acabou sendo expulso. 

  • 01/11 Atlético 4 x 3 Munique 1860, em Munique (Alemanha)
  • 04/11 Atlético 4 x 0 Hamburgo, em Hamburgo (Alemanha)
  • 05/11 Atlético 1 x 3 Werder Bremen , em Bremen (Alemanha)
  • 12/11 Atlético 3 x 1 Schalke 04, em Gelsenkirchen (Alemanha)
  • 16/11 Atlético 0 x 3 Rapid de Viena, em Viena (Áustria)
  • 20/11 Atlético 2 x 0 FC Saarbrücken, em Saarbrücken(Alemanha)
  • 22/11 Atlético 2 x 1 Anderlecht, em Bruxelas (Bélgica)
  • 26/11 Atlético 3 x 3 Eintracht Brauschweig, em Brunswick (Alemanha)
  • 05/12 Atlético 3 x 3 Seleção de Luxemburgo, em Luxemburgo
  • 07/12 Atlético 2 x 1 Stade Français, em Paris (França)

O Atlético teve importantes triunfos. O Munique 1860 é um time histórico na Alemanha e rival do Bayern, atual time mais conhecido das terras germânicas. O Hamburgo, Schalke 04 e o Werder Bremen também são times notáveis no país tetracampeão mundial.

Outro adversário importante foi o Anderlecht, o maior time da Bélgica, com 34 títulos nacional. Além disso, o Atlético encerrou a sua passagem na Europa, em um 07/12 atuando no Parque dos Príncipes, atual casa do Paris Saint-Germain, time de Neymar e Mbappé. 

A tripulação campeã

O Atlético teve 26 tripulantes na sua caminhada pela Europa. Eram 19 jogadores, o técnico, o médico, o chefe da delegação, a esposa do chefe, dois jornalistas para cobrir os eventos e a intérprete – que auxiliou Zé do Monte a xingar o árbitro no jogo contra o Rapid de Viena. 

  • Goleiros: Kafunga e Mão de Onça;
  • Defensores: Afonso, Juca, Márcio Pulit, Moreno, Oswaldo e Vicente Peres;
  • Meio-campistas: Barbatana, Haroldo, Lauro e Zé do Monte;
  • Atacantes: Alvinho, Lucas, Murilinho, Nívio, Vaguinho, Vavá e Zezinho;
  • Comissão técnica: Ricardo Diez (treinador), Dr. Abdo Borges (médico), Dr. Domingos Dângelo e Sra. Celeste (chefe da delegação e esposa), Alvares da Silva e Francisco Américo (jornalistas) e Teodora Breickport (intérprete).

A curiosidade fica pela ausência de Ubaldo, um dos maiores nomes da história atleticana. O 8º maior artilheiro da história do Atlético não participou da viagem porque estava cumprindo as suas obrigações militares. Sim, o exército tirou o craque atleticano da importante viagem. O técnico uruguaio Ricardo Diez disse, na época, que a falta de Ubaldo seria prejudicial não só para o Atlético, mas para o futebol brasileiro, já que o Galo iria representar o Brasil.

As homenagens

Após estas 6 vitórias e 2 empates em 10 jogos, o Atlético recebeu do presidente da DFB ( Federação Alemã de Futebol ), Peco Bauwens, o título simbólico de campeão do inverno europeu. Um símbolo especial para reconhecer a importância da passagem atleticana pelo Velho Continente. Certamente, o futebol alemão aprendeu muito com aquele time histórico do Galo. 

Ao chegar em Minas Gerais, em meados de dezembro de 1950, o Atlético foi recebido por uma multidão. Segundo alguns registros, mais de 50 mil pessoas estavam presentes na Avenida Antônio Carlos e Afonso Pena, a fim de parabenizar o elenco atleticano pela excursão vitoriosa pela Europa.

O título é lembrado no hino. A conquista é simbólica, já que não era uma competição, porém é ainda mais marcante pela importância. Após uma tragédia como o Maracanazo, uma equipe brasileira foi para a Europa e mostrou que o futebol brasileiro era qualificado. Os estádios ficaram lotados e o Atlético foi aplaudido de pé pelos europeus. 

Há 70 anos, a última partida da viagem histórica. Vicente Motta fez questão de colocar no hino e marcar gerações com esta glória atleticana. Uma excursão histórica, importante e que merece a lembrança. O Galo levou a arte brasileira de jogar futebol para a Europa, em meio ao frio e as ruínas pós-guerra. O Atlético fez história. O Atlético é o Campeão do Gelo!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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