Outro patamar? O que o Flamengo paga por 3 horas de Gabigol, não pagará por mês para as famílias da tragédia do Ninho

A tragédia no Ninho do Urubu. Foto: O Globo.

Por Pedro Bueno

Segundo o jornal O Globo, no início do ano, Gabriel Barbosa assinou contrato com o Flamengo com o salário na casa de 4 milhões de euros por ano. Na época, o câmbio resultava em 18 milhões de reais anuais, ou seja, 1,5 milhões por mês. Atualmente, por causa da desvalorização do real, este valor resulta em 25,1 milhões de reais, isto é, mais de 2 milhões por mês para Gabigol.

Porém, mesmo com a variação cambial, vamos trabalhar com o salário de 1,5 milhões por mês, visto que trata-se de uma quantia estimada. Um alto valor, mas merecido no ramo do futebol pelo talento de Gabigol. O atleta foi decisivo na reta final da última temporada e fez dois gols importantíssimos na final da Libertadores. No mundo do futebol, este salário é aceitável. O que não é aceitável é outra postura do Flamengo.

O time carioca está batalhando na justiça contra as famílias das vítimas da tragédia do Ninho desde a data da morte trágica dos adolescentes. O incêndio no Ninho aconteceu no dia 08 de fevereiro de 2019 e houve dez vítimas fatais. Uma tragédia incomparável. Eram meninos que sonhavam e morreram de uma das formas mais cruéis. 

E nesta quarta, 02, uma reviravolta na história deixou mais claro o posicionamento vergonhoso da diretoria flamenguista. O Flamengo “venceu” um recurso judicial e não terá mais de pagar a pensão de 10 mil para as famílias das vítimas. Que vitória é essa? Certamente esta foi a maior derrota da temporada flamenguista, visto que a humanidade é um princípio que deve estar presente no caráter. 

Um time que deseja estar em “outro patamar” e não consegue olhar para causas tão necessárias de auxílios nunca chegará a este nível. São pais que perderam seus filhos em um incêndio. Estas crianças estavam sob cuidados do Flamengo e dormiam no centro de treinamento. 

E mesmo com todos estes fatos, o Flamengo entrou com um pedido na justiça para diminuir a pensão. E, ainda por cima, “saiu vitorioso” desta disputa. Quem teve um comportamento mais decepcionante? A diretoria ao lutar por isso ou os desembargadores por aceitarem este pedido? Na verdade, quem decepcionou não faz diferença. O grande problema é ver famílias com uma dor tão grande saírem prejudicadas.

A partir desta decisão judicial, segundo o jornalista Nelson Lima Neto, o Flamengo irá pagar apenas a metade da pensão: cerca de 5 mil reais. Com isso e com cálculos básicos, um ponto fica evidente: o Flamengo irá deixar de pagar para as famílias das vítimas um valor menor que Gabriel Barbosa ganha em três horas.

Utilizando o salário do atleta na casa de 1,5 milhões de reais, Gabriel ganha 50 mil diários e pouco mais de 2000 reais por hora, ou seja, em duas horas e meia ele ganha mais de 5000 reais, valor que foi reduzido de famílias que perderam o filho. Repito, a redução pedida por um time milionário em relação a vítimas da tragédia representa o que o craque da equipe ganha em 144 minutos. 

Vale ressaltar que Gabriel não tem nada a ver com esta história. O seu salário, dentro do mundo do futebol, é até justo. O que não faz sentido é uma equipe, que tenta em todo momento se descolar como o time mais forte do Brasil, não pensar pelo lado humano. Foi uma tragédia. Um incêndio que envolveu adolescentes sob a responsabilidade da equipe. 

Um investimento milionário não consegue comportar uma pensão de 10 mil reais por mês para as famílias das vítimas? Que patamar é este que o Flamengo e a sua diretoria alcançaram? Com certeza é o patamar da vergonha e da falta de caráter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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