Olhar tático | Com Allan e Jair juntos o desempenho atleticano cai. É possível escalar os dois bons volantes na mesma formação?

Fotos: Bruno Cantini / Atlético e Agência i7/Mineirão

Por Pedro Bueno

O título já traz uma afirmação que é comprovada em números. Alguns torcedores e analistas já observaram também que o desempenho individual de Jair e Allan, quando atuam juntos, cai. Das seis derrotas atleticanas, quatro destas contavam com os dois bons volantes na formação titular. Por quê?

Acredito que até o Sampaoli esteja buscando a resposta. Não é simples definir a razão exata de dois jogadores tão talentosos não estarem entregando o melhor futebol juntos. A tentativa desta análise e dos pensamentos dos torcedores que visam o melhor do time, é entender o que pode ser feito nas futuras escalações, visto que trata-se de dois grandes jogadores que, além de retorno esportivo, podem dar retorno financeiro ao Atlético.

Jair está no Atlético desde 2019 e é queridinho da torcida. A sua forma de vibrar em campo, a vontade e o seu talento encantam os torcedores. A massa atleticana brinca com a ideia que se deixar uma bomba, certamente Jair irá desarmar. É um jogador já consolidado no elenco atleticano.

Já Allan chegou neste ano e mostrou talento. O Olhar Tático já até esmiuçou o jogo do jovem volante no início do Brasileirão. Ele é diferente, pois consegue passes e lançamentos incríveis, além de uma intensidade que, com certeza, agrada muito o Sampaoli. Diversas vezes na partida é possível ver Allan “dando piques” velozes para marcar pressão, como manda o treinador.

São dois grandes jogadores. Dois excepcionais volantes que seriam titulares em praticamente todos os times do Brasil. Por que eles não se encaixam juntos?

Números dos dois atletas como titulares

Uma grande dúvida dos atleticanos é se realmente existe esta queda de rendimento, quando Jair e Allan são escalados juntos, ou se é apenas uma impressão que passa ao ver as partidas pelas televisão. Porém os números deixam claro: existe.

  • Allan e Jair estiveram juntos no time titular em nove partidas neste Brasileirão. O Atlético venceu quatro vezes, empatou uma e saiu de campo derrotado quatro vezes. Em 24 pontos disputados, conquistou 13, ou seja, 54,1% de aproveitamento.
  • Allan esteve no time titular sem a companhia de Jair em quatro oportunidades. O Galo venceu três dessas partidas e perdeu apenas uma. Em 12 pontos disputados, conquistou 9, ou seja, 75% de aproveitamento.
  • Jair esteve no time titular sem a companhia de Allan em seis oportunidades. O Atlético venceu quatro dessas partidas, empatou uma e perdeu só uma. Em 18 pontos disputados, conquistou 13, ou seja, 72,2% de aproveitamento.

Vale ressaltar que o aproveitamento de 54,1% de quando Jair e Allan atuaram juntos não é um mau rendimento. Por exemplo, é o aproveitamento do Palmeiras, 6º colocado do Brasileirão. Porém, como a expectativa atleticana está para ficar entre os primeiros colocados, um aproveitamento acima de 70% garantiria uma boa colocação.

Os números deixam claro que boa parte das derrotas foram com os dois bons atletas no time titular, no entanto não é possível afirmar que é culpa exclusivamente deles. Boa parte destas derrotas teve um baixo nível coletivo, além dos adversários que podem ter sido equipes mais fortes. Mas os dados acabam elucidando que bem eles não estão, quando escalados juntos.

Movimentação semelhante?

Um dos grandes problemas que é possível observar entre a disputa de Jair e Allan é que os dois atletas acabam estando na mesma faixa de campo quando atuam juntos. A posição de ambos é de primeiro volante e este encaixe entre os dois atletas é feito com muito entrosamento. Acredito que o Sampaoli esteja trabalhando isso.

O mapa de calor de Jair à esquerda e o de Allan à direita. Fonte: SofaScore.com

Como mostrado no mapa de calor acima, Allan e Jair centralizam bastante as jogadas e sempre estão à frente da zaga. A movimentação de Jair tem uma maior presença pela direita, já que no início do Brasileirão, o volante de 26 anos foi escalado como um segundo volante pela direita, posição que atualmente está sendo exercida por Alan Franco. Já Allan tem uma presença pela esquerda, já que cobre – muito bem por sinal – as subidas de Guilherme Arana, que joga como um meia, na parte ofensiva.

Seria simples, para nós que não somos treinadores, colocar os dois volantes lado a lado em uma dupla de volantes à frente da defesa. Se fosse em um simulador, videogame ou até mesmo no tradicional papel, conseguiríamos. Entretanto, o futebol não é simples assim e o encaixe de duas peças leva tempo e nem sempre dá resultado.

Jair e Allan acabam ocupando a mesma posição em campo. Sendo assim, os atletas “batem cabeça”, ditado famoso e popular no mundo do futebol, que significa quando dois jogadores fazem a mesma função em campo e não se entendem. Os números e os mapas de calor mostram isso.

Estatísticas individuais

A discussão sobre a utilização ou não destes dois atletas juntos é longa e levanta boas opiniões, mesmo que divergentes. Um ponto que é indiscutível é o talento de Jair e Allan. Ambos são volantes que se destacam e ter dois jogadores deste nível dá uma dor de cabeça positiva para Sampaoli. Comparado com meio-campistas que passaram pelo Galo nos últimos anos, o atleticano deve estar feliz com esta disputa.

Dados de Jair e Allan no Brasileirão 2020 até a 20ª rodada. Fonte: SofaScore.com

Como mostrado na imagem, os números são semelhantes, porém os atletas tem características diferentes. Allan é um ritmista. Um volante que acelera jogadas, lança, faz inversões e comanda ataque e defesa. Jair é um roubador de bolas, um volante que é agressivo e impede jogadas dos times adversários.

Os dois atletas realizaram 17 partidas. Jair disputou 1217 minutos enquanto Allan esteve em campo em 1203 minutos, ou seja, praticamente tiveram as mesmas oportunidades. Jair marcou um gol e deu uma assistência na bela atuação do camisa 8 contra o São Paulo. Já Allan fica mais recuado, dando ritmo à partida e participa pouco da parte final das jogadas. O camisa 29 finaliza mais, mas acaba sendo finalizações de longa distância. Ele até acertou o travessão na partida contra o Vasco.

Como visto nas estatísticas, Allan toca, lança e arrisca muito mais que Jair. É a principal característica do camisa 29, que tenta dar a saída de bola a todo momento. Os lançamentos certeiros já deram início a bons ataques atleticanos.

Por outro lado, Jair se destaca pela sua marcação, principalmente no campo de ataque, onde ele pressiona e rouba a bola. Seus números de disputa de bola vencidas e duelos no chão ganhos chamam a atenção.

É importante destacar mais uma vez: Jair não é ruim passador, pois Allan é melhor ou que Allan não é bom marcador, já que Jair é melhor nesta característica. Ambos têm bons números no principal fundamento do companheiro. Por exemplo, Allan intercepta mais jogadas que Jair, até mesmo pela sua velocidade, e Jair tem mais eficiência nos passes. Repito, ambos são bons e, praticamente, completos.

A única possibilidade de utilização

Dois pontos são claros: ambos são importantes para a equipe, pelo imenso talento, e os dois volantes não estão rendendo como podem juntos. Se não houver um entrosamento maior no posicionamento de Allan e Jair à frente da defesa, tem uma possibilidade (ou uma invenção) que Sampaoli ainda não utilizou e pode dar certo.

No Sampaolismo, os laterais atuam internamente na fase ofensiva, como volantes. Guga faz a saída de jogo com a dupla de zagueiros e, assim que o ataque vai progredindo, o lateral-direito avança para a linha de volantes. A intenção é que ele crie, gire a bola e faça a marcação-pressão. Quando a bola é perdida, Guga retorna para a linha de quatro defensores.

Guilherme Arana é um lateral que joga mais ofensivo, como um meia, e, na hora da recomposição, Allan faz a sua cobertura. Em muitos momentos defensivos, Allan faz a ala esquerda. Por que não testar Jair pela direita?

Uma possibilidade, uma ideia, apenas. Fonte: sharemytatics.com

Jair como um lateral direito, dando combate aos pontas esquerdas adversários, possibilita assim que Allan atue como primeiro volante – cobrindo Arana quando necessário – e que preencha o meio-campo atleticano com mais opções.

Na saída de jogo, o Atlético teria uma linha de 3 com Jair, Réver e Alonso, tendo Allan à frente. Quando o Galo estiver atacando, Jair avançaria e faria a função que Guga faz. Na hora da marcação, Arana fecha a linha defensiva com 4, Allan permanece diante da zaga e Franco, Zaracho (Nathan) e Savarino recompõem, assim como está sendo feito.

Desta forma, o Atlético ganharia marcação pela direita, pois Jair é melhor nesse quesito que Guga, e na intensidade, além de possibilitar que Allan e Jair atuem juntos. É uma possibilidade para variar durante as partidas e em circunstâncias que Guga esteja fora. É invenção? Talvez. Porém é possível uma tentativa, pelo bem do Atlético.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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