Olhar tático | Inferioridade numérica ofensiva: problema evidente do Cruzeiro, o 6º pior ataque da Série B

Mesmo marcando errado, a defesa do Juventude aproveitou a superioridade numérica. Fonte: YouTube do GE

Por Pedro Bueno

São 18 jogos e 17 gols feitos na Série B. Independente de punição, problemas financeiros ou qualquer que seja a desculpa, os números são vergonhosos para um time como o Cruzeiro. O “Olhar Tático” desta semana tentará apontar os maiores problemas da parte ofensiva do time mineiro, que é o 6º pior ataque da competição.

O artilheiro da equipe na temporada é Maurício, com cinco gols. O camisa 11 já nem tem confiança nos seus chutes e é bastante contestado pela torcida. No Brasileirão Série B, Arthur Caíke é o artilheiro, com três gols marcados, porém o mesmo foi reserva nas últimas partidas. Irregularidade e falta de pontaria definem o ataque cruzeirense.

Ao ver algumas críticas de torcedores ou até mesmo de comentaristas, que alegam que “a bola não chega”, fica claro que a discussão está vaga. Existem porquês para a bola não chegar. Um gol não acontece por acaso.

O momento mais importante do futebol é fruto de uma construção tática que vai muito além de um passe final. Ocupação do campo adversário, pressão e aproximação são fatores importantes para chegar à meta inimiga, mas estas características não são vistas no atual Cruzeiro.

Raio-x dos gols

Para começar a análise, é importante enxergar como o Cruzeiro marca os seus gols. Foram apenas 17, no entanto todos têm uma jogada por trás. E na Raposa, quase a metade vem da mesma origem: a famosa bola parada.

Dos 17 gols cruzeirenses na Série B, 8 foram originados de bola parada e 9 de construção ofensiva, elucidando a importância das faltas e escanteios para a Raposa.

Dos oito tentos marcados pelo Cruzeiro por meio das bolas paradas, um foi de pênalti e dois de falta, as quais foram cobradas diretamente. Os outros cinco foram resultados da bola aérea. Em quatro oportunidades, a jogada do gol ocorreu por causa de escanteio Em uma oportunidade, contra o Sampaio Corrêa, o Cruzeiro aproveitou a cobrança de falta e marcou o gol, em um cabeceio.

Os nove gols de construção ofensiva podem ser divididos em duas origens: contra-ataque e uma jogada ofensivamente organizada. Foram quatro gols originados de contra-ataque e cinco tentos em construções ofensivas, onde a defesa adversária estava postada e o Cruzeiro conseguiu encontrar espaços.

São estatísticas que proporcionam possíveis interpretações para cada um dos baixos números.

Inferioridade numérica no ataque

Por que quase metade dos gols do Cruzeiro foram marcados por meio da bola parada?

Esta é uma pergunta fácil de ser respondida ao observar que, apenas neste tipo de jogada, o Cruzeiro coloca mais jogadores na área adversária. Enquanto o Cruzeiro ataca com a bola rolando, nas construções ofensivas, a Raposa sempre conta com muito menos atletas que a defesa adversária.

Superioridade numérica é um conceito muito comentado nas análises táticas, visto que quando uma equipe tem mais jogadores que o adversário, em determinada área do campo, é facilmente criada uma boa chance. No campo ofensivo, onde o Cruzeiro encontra defesas sempre postadas com quatro defensores e dois volantes, a Raposa deveria atacar com seis ou mais jogadores.

Esta seria a forma mais fácil de encontrar espaços no campo de ataque. Se quando Régis pegasse na bola, ele conseguisse ver três ou quatro opções de passe, seria bastante facilitada a organização ofensiva. Todavia, o que é possivel ver nas partidas do gigante mineiro é uma inferioridade numérica no ataque, tornando as boas construções ofensivas frutas do acaso e não de uma ideia treinada.

Como exemplo, é possível usar uma imagem da partida contra o Juventude, onde o Cruzeiro empatou sem gols. O ataque cruzeirense foi se desenhando e apenas quatro jogadores participaram. Airton estava com a bola e tocou para Régis. Sassá e Maurício estavam do outro lado. O problema está em um ponto da jogada: existem dois defensores a mais que atacantes.

Quatro atletas contra seis, mais o goleiro. Fonte: YouTube do GE

Mesmo a marcação mal feita pela fraca equipe do Juventude deu resultado. Régis não conseguiu ter espaço e nem opção de passe e, por causa disso, bateu travado. Ataque sem resultado, já que os volantes e laterais não atacaram.

Oito contra oito, onde alguns jogadores do Cruzeiro poderiam atrair mais marcadores ou abrir espaços. Fonte: YouTube do GE

Este ataque contra o Cuiabá também é uma boa representação da falta de ímpeto ofensivo da Raposa, que deixa apenas os quatro jogadores mais ofensivos atacar. O contra-ataque foi puxado e, neste momento, havia oito jogadores do Cruzeiro contra oito do Cuiabá no campo de ataque.

Só os quatro atacantes foram e o Cuiabá marcou com seis homens, deixando dois sem precisar de voltar, ou seja, sem se cansar. Fonte: YouTube do GE

Obviamente os oito atletas do Cruzeiro não apoiariam, porque deixaria a defesa aberta, no entanto somente os quatro do ataque atacaram e o Cuiabá, ao retornar com seis jogadores, conseguiu fechar espaços. A superioridade possibilita marcações em bloco como a feita pelo Cuiabá sobre Sassá, deixando o camisa 99 sem espaço. Como não havia opções e nem espaço, o centroavante optou por um chute com a perna trocada e errou.

São erros forçados por defesas que conseguem dobrar marcações, já que têm mais atletas que o adversário. É simples. Um time que atualmente ataca com só quatro jogadores fica dependente de bolas paradas e contra-ataques, onde a zaga adversária está aberta.

Por que este erro está presente em boa parte do 2020 cruzeirense?

Trocaram treinadores, jogadores, campo de treinamento, adversários, mas nada mudou. O Cruzeiro segue mal e a parte ofensiva não tem confiança no próprio talento. No mês de outubro foram apenas 15 bolas chutadas corretamente, em incríveis seis partidas, isto é, média de 2,5 chutes certos por partida.

A distância entre os meio-campistas e a falta de aproximação entre os jogadores são pontos cruciais em qualquer discussão sobre o momento do Cruzeiro. Até quando os jogadores não atacarão com inteligência?

A bola aérea e parada estão resolvendo algumas partidas e dando alguns pontos, assim como os contra-ataques. Porém, uma instituição do tamanho do Cruzeiro Esporte Clube se comportará assim até que momento? O clube está próximo de concluir um turno da Série B e ficará dentro ou muito próximo da zona do rebaixamento.

É esperado que os atletas entendam que não é cômodo para quem atua no Cruzeiro esperar que o acaso ou uma bola parada resolva uma partida. É necessário atacar, construir e dominar. Ter mais jogadores atacando é o primeiro passo. Felipão terá trabalho e tem que entregar mudanças urgentemente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Futebol Nacional

Comentários