Olhar tático | Até que ponto vale insistir em Éverson, em vez de Rafael?

Fotos: Pedro Souza / Atlético

Por Pedro Bueno

Primeiramente, vale ressaltar que ter dois goleiros de bom nível não é um problema, mas sim um privilégio que poucas equipes têm. Também vale destacar que a discussão é válida desde que Éverson chegou e a ideia não é culpar o arqueiro pelos pontos perdidos nas últimas semanas.

O Galo ganhou apenas quatro dos últimos doze pontos, mas Éverson não é o único culpado por este baixo desempenho. A equipe não está em um bom momento e, talvez, com Rafael estaria na mesma situação, visto que dos seis gols tomados, apenas um ou dois podem ser discutidos se o erro foi realmente de Éverson.

Rafael é um grande goleiro que conta com o apoio da torcida. Éverson também é um excelente arqueiro e tem a confiança de Jorge Sampaoli, a grande estrela da equipe atleticana e um técnico que dispensa adjetivos. A disputa é boa, levanta diversos pontos para uma discussão saudável e que busca o melhor para o Clube Atlético Mineiro.

As estatísticas acima mostram a diferença entre os dois atletas. Rafael melhor nas defesas e Éverson é superior na questão dos lançamentos. A comparação é justa a partir desta rodada, já que ambos disputaram oito jogos.

Vale ressaltar que a nota média de Rafael está baixa porque a expulsão frente o Santos – que teve mais culpa do Mariano do que do goleiro – concedeu a classificação mais baixa do SofaScore: a nota três.

Habilidade com os pés

É indiscutível o talento de Éverson nos lançamentos. A torcida até chegou a discutir sobre a importância ou não de ter um bom lançador na sua meta, porém estes argumentos foram esquecidos após a assistência perfeita para o 3º gol de Keno, contra o Grêmio. Éverson é diferenciado e pode resolver um jogo, visto que a partida contra a equipe gaúcha estava começando a ficar complicada e com o 3º gol, o Galo pôs fim no confronto.

Os números mostram a influência de cada um dos arqueiros, além da assistência do goleiro que estava no Santos. Rafael teve média de 30 toques na bola por partida e Éverson 40, ou seja, até a própria defesa confia mais em recuar e colocar o camisa 31 para organizar a saída de bola.

Os acertos de passe também elucidam bem o porquê da confiança dos companheiros. Éverson acertou 84% dos passes que tentou – desempenho semelhante aos jogadores de linha – enquanto Rafael acertou apenas 69%. Na bola longa, Éverson também se diferencia. Ele acertou 50% das tentativas e Rafael só 27%.

O goleiro que chegou do Cruzeiro deu apenas 0,9 lançamentos certos de média. Já Éverson deu 2,6, ou seja, quase o triplo de bolas certeiras do goleiro para um companheiro que esteja no ataque.

São números. Com a filosofia de Sampaoli, é muito complicado imaginar uma equipe que não tenha um “goleiro-linha”. Todas as equipes que têm a posse de bola como principal característica precisam de um goleiro para desafogar, além da defesa jogar com a linha alta e, com isso, necessitar de alguém que esteja atento para sair na intermediária.

Habilidade com as mãos

Neste ponto, Rafael apresenta melhores números e melhores atuações. O Atlético não sofreu gols em cinco partidas e em quatro delas o goleiro era Rafael. O camisa 32 tem o apoio da torcida, que reivindica com muito afinco o retorno do atleta. Ele foi titular nas oito primeiras rodadas do Brasileirão, mas após ser expulso contra o Santos, não voltou a jogar.

Os números nestes quesitos dão larga vantagem para Rafael sobre Éverson. O ex-santista levou 1,5 gols de média neste Brasileirão, enquanto o goleiro formado no rival atleticano tem média de 0,6 gols sofridos, a média mais baixa dos goleiros desta Série A.

Éverson tem índice mais alto de defesas – 2,8 contra 2,1 – mas Rafael salvou mais lances difíceis – 7 contra 5. Dos doze gols sofridos por Éverson, dois foram de fora da área, enquanto Rafael só sofreu gols – todos cinco – dentro da sua própria área, isto é, bolas mais complicadas.

A grande discussão em torno de Éverson é sobre o seu posicionamento. O goleiro sempre está adiantado e alguns gols poderiam ser evitados se ele ficasse mais próximo do gol. No último ano, enquanto ainda atuava pelo Santos, Éverson sofreu um gol de Gabriel Barbosa, onde o arqueiro estava bem adiantado e o centroavante o encobriu, decidindo o confronto direto do 1º turno. No Galo, os gols sofridos contra o Bahia (o 1º) e Fluminense podem entrar nesta crítica.

Rafael aparenta ter mais confiança no próprio talento debaixo das traves. Suas defesas e números impõem bastante respeito aos adversários, que hesitam ao finalizar no camisa 32. Já Éverson ainda não está com toda esta confiança e, com certeza, Jorge Sampaoli e os torcedores esperam que ele retorne a fazer várias defesas.

Revezar goleiros funciona?

Quando Éverson foi contratado, foi bastante discutida a possibilidade de revezamento entre os dois arqueiros. Alguns torcedores especularam que Éverson atuaria apenas nos jogos que o Atlético fosse dominar, com muita posse, enquanto Rafael jogaria as partidas mais difíceis. Isso não aconteceu e, dificilmente, acontecerá.

Na Europa, vários times revezam os goleiros, mas com um padrão: o titular joga as partidas da Liga e o reserva os jogos das copas. No entanto, o Atlético, até fevereiro, não terá copas e disputará apenas o Brasileirão.

Um revezamento dentro do próprio Campeonato Brasileiro colocaria em risco o ritmo de jogo de ambos e poderia piorar os números atleticanos.

Goleiro é mais importante com os pés ou com as mãos?

Essa pergunta é clara: a função do goleiro é defender com as mãos. A questão é que os dois fazem isso bem – ambos são bons goleiros – mas Rafael tem leve vantagem. Éverson compensa com seu talento indiscutível nos lançamentos e passes.

No Sampaolismo, o goleiro deve trabalhar com os pés com muita frequência e, por isso, Éverson tem a confiança do treinador. Rafael é talentoso e mostrou, nas partidas do início do Brasileirão, uma evolução nos passes. A decisão, obviamente, é de Jorge Sampaoli e o argentino tem talento para entender o que é melhor para o Atlético.

Os três goleiros – incluindo o ídolo Victor, que está no final de carreira – estão em perfeita harmonia, são grandes amigos e veem esta disputa como algo saudável do esporte. Isso é bom, mostra como o ambiente está tranquilo e não há vaidade. Uma equipe que busca grandes feitos deve ter um elenco forte e unido. E o Galo tem.

Nas últimas oito rodadas, Éverson foi o titular de Sampaoli. Rafael aguarda por uma nova chance. A disputa é justa, boa para a equipe e levanta diversas opiniões. Deixe a sua!

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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