O desabafo forte e necessário de Fábio, atleta que completou 900 jogos pelo Cruzeiro

Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Por Pedro Bueno

Os torcedores que ficaram até o final da transmissão do pesadelo desta última quinta, 08, na derrota para o Sampaio Corrêa, presenciaram um raro, contundente e necessário momento da carreira de Fábio: o goleiro se posicionou sobre a situação do Cruzeiro e todos os problemas que rodeiam o campo de jogo. 

O goleiro é um dos maiores da história do Cruzeiro – para muitos já é o maior. A instituição Cruzeiro Esporte Clube está completamente abalada e os resultados em campo são, simplesmente, fruto desta desorganização. São duas afirmações indiscutíveis e, até mesmo por ter ficado em meio a esta crise, Fábio se consolidou ainda mais como um ídolo. 

Fábio Deivson Lopes Maciel chegou no Cruzeiro em 2005, há quase 16 anos, ou seja, uma geração de cruzeirenses só viu Fábio como arqueiro da Raposa e isso mostra como ele é gigantesco na história. No revés vergonhoso frente o Sampaio Corrêa, Fábio alcançou a incrível marca de 900 jogos com a camisa azul celeste. 

O texto poderia homenagear Fábio e evidenciar todos os grandes momentos do goleiro com as cores do Cruzeiro. Mas a entrevista bem posicionada e forte do arqueiro faz com que todos os cruzeirenses reflitam sobre o que está acontecendo. 

A reflexão da entrevista

Foi forte. Todos os torcedores do Cruzeiro conseguiram ver em Fábio a sua indignação em ter que discursar daquela forma (íntegra do discurso descrita no fim da matéria). Todos os amantes do futebol viram um ídolo e um dos grandes goleiros brasileiros do século falar daquela forma. 

Não há dúvida: o Fábio ama o Cruzeiro e está sofrendo praticamente com a mesma intensidade que os torcedores. Ele está com 40 anos e fez questão de seguir com a equipe. Com uma condição financeira tranquila e um respeito eterno da torcida cruzeirense, Fábio poderia ter decidido se aposentar após o rebaixamento. Ele não quis. Ele desejou ajudar na reconstrução. 

No entanto, ao completar 900 jogos – e se consolidar ainda mais como o jogador que mais vestiu a camisa azul celeste – Fábio teve que desabafar. Foram 3 minutos de entrevista ao Grupo Globo, após o fim do jogo, onde o goleiro fez questão de pontuar várias questões.

Fábio, costumeiramente, concedia entrevistas protocolares, designava as suas glórias a Deus e, em momentos ruins, afirmava o seu comprometimento com a equipe. Porém o momento atual, os piores dias da história cruzeirense, pedia uma postura diferente.

O goleiro histórico foi franco: o Cruzeiro está colhendo o que foi plantado. As gestões irresponsáveis da última década deixaram rombos que serão vistos e repercutidos por muitos anos. Fábio ainda alegou que os títulos, os quais tiveram protagonismo dele mesmo, esconderam muita coisa e que agora tudo veio à tona.  

Neste momento, o torcedor pode se perguntar o porquê de Fábio não ter falado na época dos títulos, sobre a gestão irresponsável. Na entrevista, o goleiro fez questão de pontuar que ele e todos os outros jogadores são só funcionários e eles não têm a “caneta” para resolver algo. 

Caso Fábio enfrentasse estas gestões corruptas, ele poderia ter sido silenciado ou, até mesmo, desligado pelos diretores, os quais desejavam seguir se beneficiando e sem se preocupar com a instituição Cruzeiro. 

E estes diretores que arrebentaram o Cruzeiro, saíram na 1ª oportunidade e deixaram os problemas para quem seguiu ou chegou neste ano. Fábio fez questão de pontuar isto, a fim de isentar um pouco os atletas que estão na equipe e não carregam a culpa pelo rebaixamento e crise. 

Enquanto Fábio e os seus companheiros tentam – e, por sinal, estão muito mal – os responsáveis por esta situação estão em casa, sem preocupações. 

É evidente que o momento precisa de mudanças. Dentro e fora de campo a Raposa está bagunçada e, para se reconstruir, é necessário que o “Novo Cruzeiro” mude a sua forma de jogar, pois o futebol praticado em campo está vergonhoso.

Porém, como bem pontuado pelo atleta de 900 jogos, os problemas são estruturais. O Cruzeiro começou o problema e o Cruzeiro está pagando por ele. Não será fácil. O torcedor deve seguir apoiando, protestando – pacificamente – e entender que existem algumas pessoas se esforçando.

Fábio é um deles. O seu semblante triste e arrasado por fazer este desabafo deixa claro que ele está incomodado com a situação. Mesmo em uma má fase esportiva, o ídolo Fábio segue honrando a camisa do Cruzeiro. 

Íntegra da entrevista de Fábio

“Eu respeito muito o torcedor. Estou aqui há 16 anos, sou cobrado em todos os lugares que eu vou. Respeito, sei a dor que o torcedor está sentindo, pois tudo isso faz parte da minha vida há muitos anos. A gente está colhendo o que nós plantamos.

Estamos batendo na tecla desde o ano passado, os caras acham que a gente tem a caneta e pode resolver. Somos apenas simples funcionários, independente de quantos jogos eu tenho, o que eu posso fazer, eu faço. Às vezes, não dá certo, mas sempre entrego, luto e me dedico como todos hoje que entraram querendo a vitória, que, infelizmente, não veio. São coisas que a gente não pode explicar.

Agora, isso é uma coisa que a gente sabia que seria difícil há muito tempo. Desde janeiro sabíamos que a situação não seria fácil, em todos os aspectos. Teve a pandemia e a gente continuou sabendo que ia se tornar mais difícil ainda depois que perdemos os seis pontos.

O torcedor está sentido, querendo o resultado e eu entendo isso, mas são coisas que a gente plantou lá atrás. Má administração há muito tempo, os títulos escondem muita coisa, está aí pra todo mundo ver e agora está estourando em quem ficou no Cruzeiro, que está aqui tentando fazer o máximo, que abriu mão de muita coisa e que está tentando fazer de tudo para que o clube volte logo a Série A.

Os outros que fizeram um monte de coisa errada, todo mundo saiu fora e a responsabilidade agora é nossa, dos meninos que subiram, muitos que estão chegando e que nunca tinham feitos jogos profissionais. Está aí pra todo mundo ver, ninguém está escondendo, todo mundo coloca a cara e eu estou aqui de peito aberto querendo o melhor para o Cruzeiro. Agora não adianta, se a gente não se unir. Todas as situações estão contra o Cruzeiro, mas tudo está aí pra todo mundo ver. Não adianta ficar batendo, quebrando portão da Toca, pois são situações que estão aí.

E a Fifa? Quem não pagou a Fifa? Quem perdeu os seis pontos? Agora estamos nos matando aqui, fazendo um grupo, chega um, chega outro, ninguém pode ser inscrito e a realidade está aí para todo mundo ver. Quem está aqui, não está de sacanagem não.

Todo mundo aqui está tentando, todo mundo abriu mão de alguma coisa para estar aqui. Os mais antigos estão aqui, dando o máximo, mas as coisas, às vezes, não acontecem. Por quê? A gente está plantando lá atrás e tem que colher agora, em plena dificuldade. E os outros estão todo mundo em casa, os que fizeram as coisas erradas no Cruzeiro.”

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Futebol Nacional

Comentários