Olhar tático | As características do Sampaolismo, filosofia que está conquistando os atleticanos

Fonte: Twitter oficial do Atlético

Por Pedro Bueno

Líder. 9 vitórias em 12 jogos. Melhor ataque. Nenhum empate, pois está sempre em busca do triunfo. DNA ofensivo e variações táticas. O Sampaolismo – estilo de jogo implantado pelo treinador argentino no Galo – é o grande assunto das últimas rodadas, já que o Atlético está cada dia jogando melhor.

A forma que foi construída a virada atleticana sobre o Vasco e o elástico placar, 4 a 1, chamaram a atenção de todos os amantes de futebol. Os atleticanos, que vibram em cada gol e estão vislumbrando uma possível conquista do Brasileirão, são os mais apaixonados pelo estilo de jogo.

Dentre várias características, é impressionante a imposição do time alvinegro. A equipe domina o jogo com muita tranquilidade e está em uma ótima sequência: são 8 vitórias nos últimos 9 jogos – só foi derrotado para o Santos, na partida em que Rafael foi expulso precocemente.

Como de costume, o “Olhar Tático” sai semanalmente falando sobre algum atleta e sua contribuição para o time. Allan, Gustavo Blanco, Guga e Mariano, Savinho já foram temas destas análises. No entanto, o coletivo atleticano merece um olhar diferente. 

Variação do esquema tático

A pergunta mais tradicional da tática é: qual é o esquema usado pela equipe? 4-4-2? 4-3-3? Ao analisar a equipe de Sampaoli, torna- se um pouco complicado concluir qual é a formação. Na teoria, olhando os nomes e posições tradicionais, é dito que o Galo entra em campo em um 4-3-3, pois tem 2 laterais, 2 zagueiros, 3 meio-campistas e 3 atacantes. Porém, na prática é bem diferente.

Dentro do próprio Brasileirão, Jorge Sampaoli já alterou muito as suas formações. De uma partida para outra o treinador sempre modifica a sua equipe, com a intenção de adaptar ao adversário – são 19 escalações diferentes em 19 jogos no comando do time alvinegro. 

Mas a formação de Sampaoli também é alterada durante os jogos. Em algumas oportunidades substituindo e em outras apenas dando instruções, a comissão técnica consegue variar muito a equipe dentro de campo.

Na última partida, o treinador argentino não precisou mexer na sua estrutura. O time conseguiu impor seu jogo, mesmo tomando o 1º gol, e venceu a partida. O Atlético atacou no jogo todo e foi visto em muitos momentos em um 2-2-2-4. Este esquema é popular? Não, mas é a forma que o Atlético estava disposto em campo. 

À esquerda, disposição ofensiva. À direita, formação defensiva, disposição pouco usada no último jogo, já que só o Galo atacou. Fonte: ShareMyTatics.com

Como é possível ver acima, os dois laterais jogam internamente, mas Guilherme Arana joga bem mais adiantado que Guga. O lateral direito auxilia na saída de bola, enquanto o ala esquerdo penetra na área. Nathan e Sasha ficam centralizados e Keno e Savarino ficam bem abertos, como citado nos próximos tópicos. Ao defender, o Atlético se organiza em duas linhas de 4 e dois mais à frente, porém há diversas modificações nesta marcação, visto que, com a pressão bem exercida, o Galo se fecha muito pouco. 

Este esquema não é definitivo nem mesmo em campo. Os atletas, cada dia mais, entendem a ideia de jogo de Sampaoli e flutuam em diversas funções em campo. Estas variações de esquema e posicionamento encantam todos os amantes da tática.

Amplitude

Segundo o Oxford Languages, amplitude pode ser definida como “estado, qualidade ou caráter do que é amplo; grande extensão ou largueza; vastidão, amplidão”. Entendeu o que é amplitude no futebol? É mais simples do que este significado do dicionário e bastante recorrente na equipe atleticana e em todos os adeptos ao Jogo de Posição – filosofia encabeçada por Marcelo Bielsa, Pep Guardiola e seguida por Jorge Sampaoli.

A amplitude no futebol é simplesmente abrir os extremos e alargar o campo, com o intuito de abrir a defesa adversário. Sampaoli colocou isto em prática com Marinho e Soteldo no último ano e, atualmente, está apurando ainda mais esta forma de jogar com Savarino e Keno. 

Os dois pontas têm como posicionamento ficar o mais aberto possível, para que abra espaço pelo meio ou que eles fiquem com muita liberdade. Por isso que, em várias ocasiões, o Atlético vira de um lado para o outro com velocidade, pois se um lado está bem marcado, o outro ponta com certeza terá liberdade no um contra um. 

Keno recebe de Jair, tem liberdade e parte para cima, criando a jogada do 2º gol. Fonte: Youtube do GE

Ficando rente à linha, Keno iniciou a jogada do 2º gol. Mas, com este pensamento, qual é a razão de Savarino estar dentro da área para marcar o gol? Quando o ponta esquerda traz a bola para o meio, fazendo a jogada individual, o ponta direita deve entrar, a fim de povoar a área e receber a bola do outro extremo. Caso uma equipe opte por marcar muito Keno e Savarino, com certeza deixarão buracos pelo meio.  

Pressão na saída adversária

Um ponto muito comentado após a partida deste domingo, 05, contra o Vasco, foi a pressão incessante do Galo. O Vasco tentou sair curto, tocando, porém o Atlético pressionou e não deixou a equipe carioca ter a bola. 

É uma maneira de jogar muito cansativa, mas dá resultados, como visto contra o Vasco. Com a marcação encaixada, apertar os defensores adversários é a melhor forma de roubar a bola. Alan Franco e Jair fizeram isto com precisão e tiveram mérito nos dois pênaltis que o Atlético sofreu. 

Alan Franco e Jair pressionando a saída de bola. Desta vez Jair roubou e Nathan sofreu o pênalti. Fonte: Youtube do UOL

Os meio-campistas não participaram efetivamente nos 4 gols atleticanos, porém foram, sem dúvidas, os melhores em campo, junto com os dois laterais. No 1º lance, Jair apertou a marcação em Carlinhos e roubou. Em seguida, Nathan entrou na área e sofreu o pênalti do 3º gol atleticano. 

No 4º gol, Marcos Júnior, que havia acabado de entrar no lugar de Carlinhos, pisou na bola (literalmente) e Alan Franco roubou. Este tipo de lance acontece com frequência, no entanto é necessário estar próximo e atento à jogada para roubar a bola. Franco roubou, driblou e sofreu o pênalti, convertido por Keno. 

Após cobrança de falta de Castán, Marcos Júnior pisou na bola e Alan Franco aproveitou. Ele roubou, driblou e sofreu o pênalti do 4º gol. Fonte: Youtube do UOL

Presença na área

Flamengo x Atlético em outubro de 2019. Time carioca voando e o time atleticano, sob comando de Rodrigo Santana, em baixa. Uma imagem viralizou: o Flamengo pressionou e o Atlético esteve com os 11 jogadores dentro da própria área. O time de 2019 foi criticado por ser muito defensivo, além de todos os outros problemas. 

Momento que o Atlético, em 2019, tinha 10 jogadores de linha marcando dentro da própria área. Fonte: Twitter

A mudança de 2019 para 2020 foi gigantesca. A postura é completamente diferente e o Atlético segue com muitos jogadores dentro da área. Porém, com o Sampaolismo, a ocupação é feita dentro da área do adversário.

A ideia do Jogo de Posição propõe e o Atlético está conseguindo praticar: a superioridade numérica, na fase ofensiva, é preponderante para dominar os ataques. Em diversos ataques, sob comando do treinador argentino, foram vistos muitos jogadores entrando na área, a fim de finalizar próximo do gol. 

Resultado disso: o Galo é o time que mais finaliza – média de 17 arremates por jogo – e quem mais marcou gols – 25 tentos marcados em 12 jogos, média superior a 2 por partida. Outro bom exemplo de como o Atlético finaliza dentro da área é que, das 20 finalizações da última partida, 11 foram dentro da área vascaína. 

Keno, Arana, Sasha, Nathan, Franco e Savarino contra Miranda, Ricardo, Castán e Henrique. A superioridade ofensiva do Atlético resultou no gol de Arana. Fonte: Youtube do GE

Como é possível ver na imagem acima, no 1º gol atleticano, havia 10 jogadores de linha dentro da área: 6 jogadores do Galo e apenas 4 defensores do Vasco. A superioridade resulta em gol, pois além de Arana, que marcou o gol, Keno estava livre e dava opção. 

Quem é a referência?

Esta é uma pergunta sem resposta. O Atlético atua, na teoria, com Eduardo Sasha centralizado. O queridinho de Jorge Sampaoli chegou com moral e atuou em todas as partidas que esteve disponível. Mas Sasha passa longe de ser o famoso “camisa 9”.

Por causa da sua entrega, mobilidade e inteligência, Sasha participou de 34 dos 38 jogos do Santos, no último ano, e novamente é titular absoluto. Sasha se movimenta muito e, em diversos momentos, ele está armando o jogo, como um camisa 10. 

Eduardo Sasha voltou e Nathan penetrou, como um atacante. Quase gol do camisa 23. Fonte: Youtube do GE

Como é possível ver na imagem acima, a movimentação do jogo deste domingo, 04, contra o Vasco, chamou a atenção, porque Sasha estava armando e Nathan estava mais centralizado. Esta mudança de Sampaoli bagunçou a defesa vascaína, a qual deixou espaços por não entender que o camisa 18 iria sair e dar a bola para o camisa 23, Nathan.

Muitos conceitos de difícil compreensão, todavia fáceis de serem admirados. O título é o objetivo, mas ainda tem muito caminho a percorrer. O que é possível concluir é que é prazeroso ver a equipe atleticana jogar. Apreciem o Sampaolismo!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.