Juan Pablo Sorín e o dilema da lateral esquerda cruzeirense

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Por Pedro Bueno

Sim, é óbvio. É impossível comparar o ídolo cruzeirense Juan Pablo Sorín com boa parte do atual elenco do Cruzeiro. A disparidade é enorme. Mas o caos na ala esquerda, posição na qual Sorín atuava com maestria, faz com que o assunto venha à tona.

Raça, qualidade, vontade, determinação. Características que o argentino demonstrou em 126 jogos com a camisa azul celeste. Bem diferente dos atuais jogadores da lateral esquerda. Giovanni, Patrick Brey e João Lucas não conseguem se destacar e Enderson não é capaz de enxergar a solução ideal para a equipe.

Os gols das últimas 3 partidas saíram do lado esquerdo da defesa. Mesmo com o gol frente o CRB, Giovanni segue sendo contestado por causa das más atuações. Patrick Brey jogou contra o Figueirense e também foi o ponto fraco da equipe. João Lucas, tão contestado antes da pausa do futebol, está tendo poucos minutos com Enderson, no entanto o mau desempenho continua.

Falta DNA de cruzeirense neles. Falta DNA de Juan Pablo Sorín não só nos laterais esquerdos, mas em quase todos os atletas cruzeirenses. O jogador argentino teve 3 passagens pelo Cruzeiro, venceu 4 títulos e ficou marcado na história.

O jogador chegou em 2000 à equipe mineira, vindo do River Plate por 5 milhões de dólares, na transação mais cara do Cruzeiro na época. Sorín chegou com o patamar de campeão argentino pelo River e almejava conseguir ainda mais feitos no Brasil. 

E conseguiu. O jogador se tornou um grande ídolo da torcida celeste. Na conquista da Copa do Brasil de 2000, 1º título de Sorín em solo brasileiro, o jogador atuou mais fixo na lateral esquerda. Com o passar do tempo, Sorín foi mostrando sua polivalência e se tornou um elemento surpresa da equipe mineira.

Os treinadores da época poderiam optar por escalar ele em qualquer posição da ala esquerda. O jogador dava conta do recado. Durante sua passagem pelo Cruzeiro, o jogador fez 18 gols e ajudou a Raposa em diversos momentos. 

Sorín teve seu lance mais marcante na final da Copa Sul-Minas de 2002. Esse foi seu último jogo na 1ª passagem, que foi a mais marcante e vitoriosa do craque argentino pelo Cruzeiro. O jogador já estava negociado com a Lazio, todavia fez questão de entrar em campo para tentar levar o bicampeonato da competição.

O seu profissionalismo e a vontade de despedir da torcida em campo valeram a pena. Na noite do dia 12/05/2002, Cruzeiro enfrentou o Athlético-PR, pela final da Copa Sul-Minas. O Mineirão estava cheio, com quase 70 mil pessoas, todas estas na expectativa de ver a Raposa erguer mais uma taça e se despedir do ídolo argentino.

A escalação cruzeirense no jogo foi: Jefferson; Ruy, Cris, Luisão, Sorín; Marcelo Batatais, Jussiê, Jorge Wagner, Fernando Miguel; Fábio Júnior, Edilson Capetinha. O treinador da época era Marco Aurélio.

E a despedida de Sorín teve a cara do argentino. Em lance ainda no 1º tempo, o jogador cortou o supercílio. Com sua imensa vontade de voltar a campo e ajudar a equipe, Sorín voltou com o corte sem ser estancado da forma correta. No intervalo, os médicos deram 6 pontos no machucado do lateral argentino. O jogador saiu de campo? Óbvio que não. 

A vontade dele foi recompensada. Em boa jogada de Ruy pela direita, Sorín estava no meio da área. O lateral bateu de trivela com a excelente perna esquerda e definiu a final. 1 a 0 para o Cruzeiro. 1 a 0 para Sorín. Bicampeão da Copa Sul-Minas. Despedida com o DNA argentino, o DNA de Juan Pablo Sorín. 

O gol de Sorín na partida contra o Athlético-PR na decisão da Copa Sul-Minas de 2002.

O jogador ainda voltou ao Cruzeiro em 2004 e em 2009, em passagens curtas. A última foi o encerramento da sua vitoriosa carreira. Aos 33 anos, o jogador estava se lesionando muito e decidiu se aposentar. O time mineiro fez várias e merecidas homenagens para Sorín. Um craque internacional que ficou marcado na história cruzeirense. 

Um lateral esquerdo completo. Atacava, jogava aberto, fazia gols, ao mesmo tempo que marcava, dava carrinho e vibrava com o time. Fica o exemplo para os atuais jogadores da posição que não andam agradando à torcida cruzeirense. Um pouco de vontade e determinação podem ajudar o Cruzeiro neste momento.

Sorín está com 44 anos, não pode voltar a jogar e nem irá querer. Mas o seu talento e disposição seriam aproveitados em um lado esquerdo caótico da defesa. Talvez o dilema cruzeirense seja ainda maior pelos jogadores da posição não apresentarem 1% da qualidade do ídolo.

Caso o atual elenco do Cruzeiro queira, é possível ter a raça de Sorín. Basta ter vontade. Basta entender que o mau momento não é sinônimo de Cruzeiro. O Cruzeiro é maior que isso. No Cruzeiro, o jogador pode dar 6 pontos no supercílio, fazer de tudo para voltar e ainda marcar o gol do título. Isso é Cruzeiro. Isso é Juan Pablo Sorin.

Boa parte do elenco, principalmente os laterais esquerdos, entendam: o Cruzeiro precisa da raça e vontade de vocês. Mudanças devem acontecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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