O que é preciso para vender um clube na Premier League – o caso do Newcastle

Newcastle/Divulgação

Qual a sua imediata lembrança quando o tema é Newcastle? Algumas pessoas vão falar da cerveja e outras talvez lembrem de Sting. O público do metal cantará músicas do Venom.

O público do futebol também ficará dividido. Kevin Keegan ou Alan Shearer? Ou quem sabe Mirandinha? Sim, o primeiro brasileiro a atuar na Inglaterra.

O tradicional clube inglês não tem ocupado o noticiário esportivo por causa de sua campanha de permanência na Premier League – o Newcastle está próximo de conseguir a pontuação necessária para não correr risco de rebaixamento. Nem mesmo grandes contratações têm sido especuladas no momento. Para ser bem sincero, alguns jornais até apontam o interesse em Brady e Hendrick, ambos jogadores do Burnley.

O que tem virado notícia é a real possibilidade de venda do Newcastle. Pela enésima vez, Mike Ashley, proprietário do clube, parece mesmo estar disposto a vender a parte que tem direito.

O atual movimento parece ser diferente dos outros tantos acenos que ele fez aos jornalistas e ao torcedor de que seu período à frente do clube estaria no fim. Vale até lembrar que o torcedor tem se posicionado contra Ashley já há algum tempo.

Para tentar entender o processo de venda e aquisição de um clube na Premier League, fui obrigado a recorrer ao advogado especializado em esportes Daniel Geey. No livro Done Deal (Negócio Fechado), Geey explicou toda a etapa necessária para a compra e venda de um clube da Premier League e o processo que além de caro, é longo. Daniel Geey disse não estar tão por dentro de qual etapa do processo se encontra o Newcastle.

O que é preciso para vender ou comprar um clube na Premier League? Um documento inicial é redigido dando ao possível comprador o direito de conhecer detalhes das finanças do clube, contratos com jogadores, comissão técnica e funcionários; as ações na justiça; as responsabilidades e dívidas e uma possível exclusividade de venda com tempo determinado.

Em um outro momento é providenciada a confecção e assinatura de um documento que resume elementos do acordo. São eles: nomes de todos os compradores e provável futura direção e nomes dos vendedores. Valores envolvidos e a especulação é de que a venda do Newcastle envolve cerca de 340 milhões de libras. Período definido como de exclusividade (se houve um período). Valores que o clube apura na Premier League e outras competições. Documento pronto e a Premier League obrigatoriamente tem que ser comunicada. Aqui vale a lembrança: os clubes, e o próprio Newcastle normalmente falam com a Premier League desde o início da negociação, mas documento com todos os dados acima citados é uma formalização que indica que algo mais sério está sendo discutido.

Por sua vez, a Premier League solicita ao possível comprador um plano de negócios e garantias financeiras. Com tudo isso em mãos, a Premier League passa a ter dez dias úteis para aprovar ou não.

Chegou a hora do “ufa, enfim acabou?” Não! Quais são os pontos que a Premier League passa a investigar?

  • o possível comprador não pode ter 10% de ações de um outro clube de primeira divisão
  • os participantes da direção não podem ter sido banidos de um outro clube ou empresa
  • também não pode haver histórico de alguém da direção preso ou falido
  • não pode haver envolvimento em um clube insolvente ou falido
  • não pode ter sido banido por algum órgão esportivo
  • não pode ter violado os regulamentos de apostas
  • não pode ter acusação de violência ou ofensa sexual

Falei com o autor do livro Done Deal, advogado que trabalha com vários clubes, jogadores e agentes. Ele participa de renovações de contratos, direitos de imagem e até mesmo em negociações envolvendo transmissões de eventos. Segundo Geey, é difícil saber em qual etapa do processo se encontra a possível venda do Newcastle. Em relação ao tempo necessário para efetivação da venda, Daniel Geey cita em seu livro o exemplo do Portsmouth.

Em maio de 2009, Alexandre Gaydamak aceitou a proposta do empresário Sulaiman Al-Fahim. Logo no primeiro dia de julho de 2009, pouco mais de um mês, a Premier League confirmou que recebeu toda a documentação necessária e no dia 6 de agosto toda a negociação foi concluída.

Não é de hoje que Mike Ashley é visto conversando com Amanda Staveley, empresária de sucesso e responsável por diversos negócios com a Arábia Saudita e Catar. Ela teria intermediado negociações envolvendo o Manchester City e provavelmente faz parte do consórcio que quer comprar o Newcastle. Ao lado dela estaria também Jamie Reuben, dono de rede de hoteis, de bancos de investimento e atual diretor do Queens Park Rangers. Além deles, o consórcio teria a participação de Yasir Al-Rumayyan, que é o presidente do Fundo de Investimentos Públicos da Arábia Saudita e de fácil relacionamento com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammed Bin Salman.

É claro que todo o processo não contava com a participação inesperada do coronavírus, que deve acabar alterando prazos e talvez planos. O torcedor do Newcastle, que já não suporta mais Mike Ashley, vive as incertezas quanto ao futuro e vai cobrar muito um reencontro com a sua história repleta de dias bem menos sofridos.

*Atualizado às 20h33

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.