Onde o “VAR dos sonhos” virou pesadelo – por Leonardo Bertozzi

Premier League / Twitter

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Acharam que íamos falar do Brasil? Não, não…

As primeiras rodadas do uso do árbitro de vídeo na Premier League pareciam mostrar um aproveitamento quase perfeito da ferramenta. Decisões rápidas e eficazes, sem atrapalhar o fluxo rápido do jogo, algo que orgulha os ingleses.

Em um país bastante conservador com o jogo que inventou, a liga foi a última das mais importantes da Europa a adotar o VAR. E o fez ignorando alguns padrões mundiais da ferramenta, que segue um protocolo bem específico.

Inicialmente, a Premier League prometeu um “sarrafo alto” nas intervenções em lances interpretativos, como pênaltis. A consequência foi uma excessiva omissão, com nove rodadas se passando sem que o VAR indicasse a marcação de uma penalidade máxima.

Desde o fim de semana passado, o que se viu foi uma redução considerável da altura deste sarrafo, com mais lances interpretativos sendo marcados pelo árbitro de vídeo.

Aí entra o problema maior.

Ao contrário do que se faz no mundo inteiro, com o árbitro se dirigindo ao monitor à beira do campo para eventualmente mudar sua opinião sobre a decisão inicial quando recebe a indicação de um erro, na Premier League simplesmente se executa o julgamento do VAR.

Mas o monitor não está ali como enfeite. Arbitrar futebol é, em grande parte do tempo, interpretar situações. E a regra coloca o árbitro como o único apto a tomar uma decisão final.

Decisões objetivas como as de impedimento – ainda que milimétricos e perceptíveis apenas com a ajuda do software que projeta linhas tridimensionais – não exigem que a revisão de campo (ou OFR, “on-field review” na sigla em inglês) seja feita.

No entanto, outras situações têm de ser avaliadas, como a intensidade do contato, especialmente numa liga onde historicamente ele é mais tolerado.

Tivemos um exemplo no sábado. No jogo entre Watford e Chelsea, foi marcado pelo VAR Mike Dean um pênalti de Jorginho sobre Gerard Deulofeu por um mínimo contato, depois de o árbitro Anthony Taylor julgar o lance como normal.

Se Taylor visse as imagens, talvez discordasse da opinião do colega e mantivesse a decisão original, fazendo valer sua condição de autoridade máxima do jogo.

O técnico do Chelsea, Frank Lampard, fez uma avaliação correta do estado atual do VAR.

“Se vamos mudar decisões porque um árbitro em outro lugar acha que foi mais pênalti do que o árbitro no campo, então acho que estamos num lugar perigoso. Vamos atirar uma moedinha para o alto toda semana”, disse o treinador dos Blues.

Lampard está certo. O plano original do VAR nunca foi substituir o árbitro do campo. O “A” da sigla significa assistente. Ele tem de auxiliar e não decidir por quem está em campo.

Ou a Premier League muda suas diretrizes, ou o que era um “VAR dos sonhos” pode ter sua credibilidade comprometida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.