Chega! O calendário do futebol não pode ser tão insano – por Leonardo Bertozzi

Liverpool / Twitter

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Quando se fala em calendário, é difícil competir com a insanidade do futebol brasileiro. Temos Estaduais enfadonhos que consomem boa parte da temporada, jogos em datas Fifa, jogos durante torneios continentais de seleções.

A ganância e a incapacidade de organização coletiva dos clubes, aliadas ao desinteresse da CBF em qualquer coisa que não seja a Seleção, fazem com que não haja perspectiva de melhora a curto prazo.

A lógica “mais jogos, mais dinheiro” impera nos argumentos dos dirigentes e das empresas que adquirem direitos de transmissão. Qualidade dos jogos? Passa longe de ser um tema considerado relevante pelos que deveriam zelar pelo espetáculo.

Sim, temos um problema. E em vez de caminhar na direção do resto do mundo, parece acontecer o contrário: o futebol internacional também caminha cada vez mais para um número excessivo de partidas.

Um sinal de alerta foi aceso esta semana, com a classificação do Liverpool para as quartas-de-final da Copa da Liga Inglesa. Em tese, o jogo contra o Aston Villa seria disputado na mesma semana em que o time estará no Catar para o Mundial de Clubes da Fifa.

O técnico Jürgen Klopp deu a letra: se não colocarem a partida em uma data aceitável, o time não entra em campo e deixa a competição. Com um calendário pesado na Inglaterra no fim de ano, há poucos espaços para encaixar o confronto pelo torneio doméstico. Cogita-se até dividir o elenco em dois para atender a ambos os compromissos.

E o Mundial no atual formato ainda afeta apenas uma semana.

Já aprovado para 2021, o novo Mundial da Fifa terá 24 clubes e será disputado em junho e julho, quando normalmente os times europeus estariam de férias. E os transtornos não param por aí.

Competições continentais de seleções, como a Copa Africana de Nações e a Copa Ouro da Concacaf, terão de ser empurradas para depois do Mundial de Clubes.

Jogadores como Sadio Mané e Mohamed Salah teriam de servir suas seleções até o fim de julho, o que afetaria consideravelmente suas férias e a preparação para a temporada seguinte, que já se inicia em agosto.

Ao mesmo tempo, a Uefa se envolve em discussões sobre a reforma da Champions League a partir de 2024, quando expira o próximo ciclo de três anos em que o regulamento é protegido.

A associação europeia de clubes (ECA), liderada por Andrea Agnelli, presidente da Juventus, pressionou por um aumento no número de datas da competição, alegando que o desejo das principais equipes é fazer mais partidas internacionais.

A polêmica proposta foi rejeitada em massa pelas ligas europeias, especialmente por uma proposta que daria uma espécie de “vaga cativa” aos clubes que tivessem um bom desempenho no próprio torneio, diminuindo o peso dos campeonatos nacionais na classificação.

Enquanto as entidades crescem o olho para a mina de ouro que são os gigantes do futebol mundial, pouco se faz para lidar com o crescente peso do excesso de jogos.

Em agosto, a FIFPro, associação mundial dos jogadores de futebol, divulgou um estudo em que chamava a atenção a quantidade de partidas e viagens de alguns jogadores de elite.

O sul-coreano Heung-Min Son, do Tottenham, disputou 78 partidas e viajou mais de 110 mil quilômetros para servir à seleção. Ele disputou uma liga sem pausa de inverno e com duas copas nacionais, assim como o goleiro Alisson, que jogou 72 vezes e viajou mais de 80 mil quilômetros para defender o Brasil.

Diante das pressões, a Premier League criou para esta temporada um período de intervalo entre jogos em fevereiro. Uma rodada terá cinco jogos em um fim de semana e outros cinco no seguinte, garantindo que cada equipe tenha duas semanas de pausa.

Já é alguma coisa, mas ainda é pouco. O mesmo estudo aponta, com base científica, que a possibilidade de lesão é consideravelmente maior quando se joga frequentemente com menos de cinco dias de intervalo.

Outra discussão necessária envolve o calendário das seleções. Reduzir o impacto das viagens é necessário, possivelmente diminuindo o número de pausas sem comprometer o número de partidas. O atual calendário está garantido até o final de 2024, mas já existem discussões para novos formatos.

A marcação da Copa do Mundo de 2022 para novembro e dezembro é outro problema. A liberação dos jogadores para as seleções está prevista para o dia 14 de novembro – apenas uma semana antes do início do torneio no Catar.

Todos querem mais jogos, mas ninguém consegue aumentar o número de dias do ano.

O futebol precisa ser protegido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.