É possível os mineiros voltarem a brigar no topo? por Leonardo Bertozzi

Ramon Lisboa/EM/D.A Press

Ramon Lisboa/EM/D.A Press

O homem que construiu seu castelo num terreno instável aproveitou bastante seus primeiros anos ali. Deu grandes festas, foi feliz, viveu momentos inesquecíveis. Inebriado por aquele estado de excitação, debochou de quem tentou avisar que a edificação dava os primeiros sinais de ruptura. E que algo precisava ser feito antes que ele precisasse ir morar na rua.

Qualquer semelhança com a situação de Atlético e Cruzeiro não é mera coincidência.

Por muitos anos, acreditou-se no futebol brasileiro que a ausência de planejamento a longo prazo, por ser fator comum à maioria das equipes, não traria grandes consequências. Afinal, eu posso até não cuidar bem do meu jardim, mas você já olhou para o do vizinho?

Este tipo de pensamento acentuou a montanha russa nos resultados e a crença de que, em muitos casos, o certo podia ser o errado. Por que me organizar se eu posso ganhar acreditando no aleatório?

Até que um dia alguém percebeu que a junção entre responsabilidade na gestão e boas decisões esportivas poderia significar um grande passo à frente.

Para o Flamengo, não foi fácil tomar esse caminho. Como qualquer torcida de massa, ela espera as conquistas para ontem.

Mas o clube estava convencido de que, quando conseguisse arrumar a casa, os benefícios seriam duradouros.

Pode parecer prematuro dizer isso antes mesmo que a primeira conquista seja confirmada. Mas hoje não há qualquer perspectiva de recuo. A ambição é enorme. E as receitas, não mais devoradas pelas irresponsabilidades do passado, a permitem.

O leitor pode argumentar, com razão, que o Flamengo opera com possibilidades de faturamento com as quais os mineiros mal podem sonhar hoje.

É verdade.

Mas há outros exemplos virtuosos. O Grêmio, que há não muito tempo vivia situação delicada. O Athletico Paranaense, que tem desafios bem maiores, por estar fora de um dos quatro grandes centros.

Eles entenderam que você pode não conseguir competir pela contratação de grandes jogadores internacionais, mas pode compensar com formação, captação e venda de atletas, com compras mais racionais, com um projeto esportivo com identidade.

São modelos que parecem mais sustentáveis.

Trabalhar com um orçamento menos opulento não pode ser desculpa para precarizar o trabalho do dia-a-dia. Tal realidade te obriga a ser ainda mais criterioso. Sua margem de erro é menor.

Não pode dar contrato longo para veteranos que já viveram os melhores anos da carreira e não têm mais o que provar – e mesmo que joguem bem, não darão retorno aos cofres.

Não pode acreditar que a base só serve para tapar buracos.

Não pode escolher técnico por falta de opção melhor.

Não pode tentar silenciar críticos na marra.

Não pode achar que discordância é perseguição ou inveja.

Não pode transformar a gestão de um clube numa ação entre amigos e familiares.

Sim, é possível Atlético e Cruzeiro voltarem a competir em alto nível.

Mas o terreno para construir este castelo precisa ser sólido.

E ele tem de ser construído por quem tenha genuíno interesse pelo bem dos times e não por um cargo, um salário, por vaidade.

Se você sabe para onde está indo, não se importa em esperar um pouco mais para chegar lá.

Não existe atalho, e outros já estão ensinando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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